sexta-feira, 23 de novembro de 2012
NEM OSAMA NEM OBAMA
O anúncio da morte de Osama Bin Laden leva-nos a profundas reflexões sobre fatos tão sérios que acontecem no mundo, desde sempre. A morte traz com ela uma sensação de vazio muito grande, em relação ao espaço que o morto ocupava. No caso de Osama, especificamente, o que se nos afigura é o temor de, nesse vazio da morte, entrar a banalização do assassinato. Seja quem for esse que desencarna, tirar-lhe a vida não é obra que deva ser realizada por mão humana. É certo que houve uma programação reencarnatória de Osama, feita por ele mesmo, e que se assim o foi, motivos há. Teria que acontecer, só não sabemos se deveria ser dessa forma. É péssima a idéia de que alguém deva ser condecorado por um assassinato!
Há um texto escrito por Ricardo Vélez Rodriguez em que ele diz que “para a vulgar forma de entender as coisas, há oposição radical entre mito e pensamento lógico-discursivo”. Eu tento trazer esse pensamento para o terreno dos fatos históricos atuais. Digo que há oposição radical entre o mito e o que é um homem realmente.
Conforme Vélez, “O primeiro pertenceria ao terreno do imaginário. Seria uma estória. O segundo é o reino do objetivo. O mito é um paradigma, um modelo. É o exemplar em que se alicerça toda a atividade e toda a eficácia. No contexto das várias tradições mitológicas, isso é entendido de diferentes formas, como acontece, por exemplo, nos rituais de repetição...”.
Usei essa citação, porque me veio à mente a temerária hipótese de que esse caso venha a repetir-se, tornando Osama um mito para muitos e, em contrapartida, mostre essa morte como algo que aconteceu por absoluta necessidade de que haja um herói, no caso o Obama.
Concluimos que nem Osama deva ser mito, nem Obama deva ser herói, já que seus feitos passam a anos-luz do que se espera dos homens, enquanto seres inteligentes e dotados de princípios humanos.
Fazendo um paralelo, uso para essa morte, as palavras de Samuel Beckett, em sua obra Malone morre: “Depois deste banho de lama, vai ser mais fácil eu aceitar um mundo que minha presença não tenha conspurcado [...] vou abrir os olhos, me contemplar tremendo [...] dar a meu corpo as velhas ordens que eu sei ele não é mais capaz de executar, vou consultar meu espírito destinado à ruína e ao fracasso, vou estragar minha agonia ao máximo para poder vivê-la melhor, já longe do mundo, que, por fim, abre seus lábios e me deixa partir.” (Tradução de Leminski).
Essa é uma pequena fatia da história contemporânea, da qual devemos tirar aprendizados conclusivos a respeito da inutilidade e das terríveis consequências causadas pela imensa gana de supremacia dos poderes, em detrimento de incautos e/ ou inocentes civis.
Esperamos que fatos dessa natureza não se repitam e que os homens parem de escrever a história da humanidade “con tinta sangre”.
REFERÊNCIAS:
VÉLEZ RODRÍGUEZ, Ricardo. Tópicos especiais de filosofia moderna, Juiz de Fora: EDUFJF; Londrina: Editora da UEL, 1995.
BECKETT, Samuel. Malone morrre, Códex (Série Grandes Letras) – Tradução de Paulo Leminski, 2004.
Dalva Molina Mansano
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