Dalva Molina-Encantamento

Dalva Molina-Encantamento
QUINTAL DE CASA

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

OS CORAÇÕES DE FRIDA



AS DUAS FRIDAS (1939)
FRIDA KAHLO

Las dos Fridas, 1939. ( As duas Fridas )
Lienza em óleo 173,5 X 173 cm. ( Tira de pano = Tela em Óleo)

Foto colhida através do Google:
http://www.artigonal.com/educacao-artigos/as-duas-fridas-1939-frida-kahlo-1286612.html

Acesso em 30/11/2012



OS CORAÇÕES DE FRIDA

“Por ser sozinha (em meu pintar distinto)
e por ser o assunto que mais conheço,
a mim mesma pinto”.

Sob céu tempestuoso,
meu coração posto a nu,
mostra o que eu sinto.

Sangra ele pela artéria
da que também sou eu
e que a mim dilacera.

Levo na mão esquerda
o que julgam ser o terceiro olho,
talvez minha grande perda.

Ele extirpado, agora me conduzo,
tenho dois olhares para o mesmo ponto,
já libertos do obtuso.

Um coração partido,
Sou duas em uma,
sangrando no vestido.

Outro coração inteiro,
porque não pinto sonhos em pluma,
meu tema é verdadeiro.


Dalva Molina Mansano
Londrina, Novembro/2012


(Poema inspirado na tela de Frida Kahlo, As duas Fridas)

É com muita alegria que aqui registro a utilização deste poema Na Unidade Didática desenvolvida pela Professora Márcia Maria Lopes de Souza, cujo tema é Leitura da Imagem: O feminino nas obras de Frida Kahlo e Pablo Picasso. Programa de Desenvolvimento Educacional - PDE, promovido pela Secretaria de Estado da Educação do Paraná, integrada à Universidade Estadual de Londrina.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

"NO DEVAGAR DEPRESSA DOS TEMPOS"

Foto: google




"NO DEVAGAR DEPRESSA DOS TEMPOS"

Sempre ouvi a voz dos livros, meus companheiros na viagem da vida, que me respondiam sendo surdos e cegos. Surdos, a mim ouviam; cegos, a mim gu...iavam. Vejo que Padre Antonio Vieira tinha razão, quando disse que o livro “é um mudo que fala”.

Vim me trazendo na vida, sob a guarda de meus anjos e dando passos no caminho das letras. Em algumas delas tropecei, noutras, sentei-me para descansar e apreciar a paisagem.
Dentre aquelas nas quais me encostei para descansar, estão muitas de Guimarães Rosa. Para compreendê-las eu precisava de tempo. Foram momentos preciosamente gastos, na busca do entendimento. No redondo de cada letra, acendia-se em mim uma luz para mais um passo e, assim, vim vindo “atrás do vagalume lanterneiro que riscou um psiu de luz”.

“No devagar depressa dos tempos”, fui mudando e, do opaco, me surgiram coisas, com as quais fui crescendo, “sem saber para onde”. Em Rosa não tropecei; antes, espalhei-me na poeira das palavras.
Tive solavancos em algumas frases de outros, não porque eles tivessem errado, fique longe de mim tal afronta! Porém, porque sou atrevida e porque me dou ao desplante de discordar de certas coisas que leio e foram gravadas pela história. De tão atrevida, fiz “tsc-tsc” para Byron e segui a caminhada.

Não plantei arbustos com espinhos, para que me ferissem posteriormente. Sempre gostei de boas sementes e procurei semeá-las em solo fértil e bem regado... por mim, claro. Se assim eu não fizesse, de nada adiantaria realizar a semeadura.

Dei-me o direito de ser princesa e tomei como exemplo algumas passagens de Hamlet, escolhendo, a cada dia, o meu modo de agir sob as próprias escolhas, lutando com as antinomias da vida. Talvez fosse esse o melhor modo de, um dia, chegar à rainha.
Quanto atrevimento, alguns dirão. Entretanto, não quero reinar sobre pessoa alguma e nunca busquei vassalos. Tento ser rainha de mim mesma, buscando acertar com meu livre-arbítrio, sem ferir o próximo.

Assim, percorro meus caminhos, defendendo direitos inalienáveis, tal qual fez Victor Hugo em O último dia de um condenado à morte, já que todos estamos condenados ao desencarne e “contra fatos, não há argumentos”.

Comigo seguem os frutos que colhi à beira da estrada. Colhi-os de cada história ouvida dos homens e das mulheres que por mim passaram. Colhi-os, também e principalmente, do Livro dos Livros.

Com esses companheiros eu pude ver que, muito mais que arbustos espinhentos, há lindas flores à beira dos caminhos e que estes são produtos de nós mesmos.

Dalva Molina Mansano
25.11.2012

domingo, 25 de novembro de 2012

O ELO





Quero dizer-te dos beijos
Que depositei em tuas mãos,
Coloca-os onde a ti derem prazer
E sente-os profundamente, do meu fardo aliviado.

Espalmadas em meu rosto
E tão quentes de meus beijos
São tuas mãos a certeza de que existo
E que elas abstraem de mim o teu concreto.

Há nelas o elo de nossa aliança
Unindo o inelutável de nossos destinos,
Em que aponho orações de mil amores
No evidente apogeu de ontem e para sempre.



Dalva Molina Mansano

HILDA HILST






Que luz tiveste em tua estrela
Oh, lúcida mulher da pá virada.
Mais que a pá viraste ao vê-la
Reluzindo vida em pedra gelada.

Musa dos poetas de teu tempo
Intensa em mais profunda solidão.
Brincaste de ser séria ao relento
De insana herança e sofreguidão.

Assim te ausentaste ao longe quieta
Para lavares teu estreito-pouco
Quando te olhaste na vida crua ereta
Percebeste quanto o mundo era louco.


EM HOMENAGEM A HILDA HILST




Dalva Molina Mansano

ELIS E OUTROS ANJOS





Penso que ouvi o cântico de um anjo, quando nasci. Não só penso como tenho uma indefinida certeza. Notas suaves, certamente. Ele cantou e permaneceu comigo.
Outros anjos andam a minha volta entoando notas celestiais e, confesso que, entre mim e eles, há e sempre houve plena harmonia, pois tudo que cantam agrada meus ouvidos.
Lembro-me da voz afinada de minha mãe que cantava pedalando a máquina de costura. Eu, menina, deitada no assoalho, vendo aqueles pés que iam e vinham no pedal, afinava em meu peito os acordes da infância. Enquanto ela cantava, eu, ao som de sua voz, viajava nas asas da borboleta. “Vai, oh, gentil borboleta, vieste me atormentar, vieste trazer-me a lembrança de quem não quero lembrar”... E minha imaginação, embalada pela voz de minha mãe, voava no vai-e-vem que costurava a vida.
Joaninha, minha irmã, também me embalou com sua voz angelical. Lembro-me de suas canções entoadas dentro de casa e em nosso quintal, clamando por um amor que se foi. Enquanto eu tentava entender a dor contida naquela voz, subiam notas musicais pelo vento e se espalhavam no espaço: “Ya no estás más a mi lado corazón
En el alma solo tengo soledad
Y si ya no puedo verte
Por qué dios me hizo quererte
Para hacerme sufrir más?”
Minha tia, Dolores, espantava suas dores batendo, com raiva, as roupas na tábua de lavar, perguntando triste e insistentemente com maviosa voz:
“¿donde estará mi vía,
Por que no viene?
Que rosita encendera
Me lo entretiene. “
Minha curiosidade aguçada perguntava a mim mesma se o amor era só isso: saudade e dor. Luiz Gonzaga um dia me respondeu que saudade faz roer e amarga que nem jiló.
Meu pai era um anjo que cantava com sua voz grave, como convém à história narrada na música flamenca e me ensinou a sentir no sangue o tremor da guitarra de Andaluzia, quando solava El Imigrante... “yo soy un pobre imigrante, que vengo hasta tierra estraña...
“ Me tienes que echar de menos”.
Vez por outra, em língua portuguesa ele me encantava, imitando Carlos Galhardo
e ensinandome cantar o amor: “O nosso amor traduzia felicidade e afeição, suprema glória que um dia tive ao alcance da mão...”
E assim, fui sendo conduzida por harpas e acordes que me adormeciam e me acordavam de maneira a me embevecer e em tudo ver motivos pra cantar. Sim, antes que me esqueça, eles já se foram, timbram e modulam no céu de todos os amores. Eu, com toda a certeza que me permite a fé, sei que cantam ainda pra mim, entre outros que me são simpáticos.
Na adolescência, outras vozes me encantaram e ao som delas dancei enlevada e ouvi serenatas. As serestas varavam minha janela e faziam com que meus olhos grudassem em longínquas estrelas.
Dentre elas, a de mais linda voz brilha no céu dos encantados. Descobri que Fascinação era linda na voz de Galhardo, mas, pra mim, ninguém cantou como Elis. E assim foi em Transversal do Tempo, em 1978, quando “a palavra mais constante em ‘que-país-é-este’ era PER-PLE-XI-DA-DE”. Em 1977, exultei com Romaria e nada calou mais fundo em mim que o disco Falso Brilhante de 1976.
Lembro-me quando chorei sentada na cozinha de minha casa, ouvindo a interpretação estonteante de “Atrás da Porta” na voz Elis, num disco que acabara de adquirir. E vieram “Como nossos pais” e “velha roupa colorida”... E... Ai, Elis, ai, Elis!
Não farei comparações, pois aqui elas não cabem.
Digo apenas que continua a estrela brilhando e que esta voz também caminhou comigo, soprando em meus ouvidos os encantos musicais. Nada mais me resta a não ser fazer uso das palavras inscritas na capa do disco editado em 1982, após a partida da estrela, Trem Azul Elis:
“Aí estou, pelo salão, pelas casas, pelas cidades, parecida comigo. Um rascunho. Uma forma nebulosa, feita de luz e sombra. Como uma estrela. Agora eu sou uma estrela.”
Sim, Elis, Agora você é uma estrela.







http://letras.terra.com.br/trio-los-panchos/254131/
http://letras.terra.com.br/joselito/815235/
http://letras.terra.com.br/elis-regina/80745/

Dalva Molina Mansano

MUDEZ







Sob o guarda-sol,
Guardei a sombra de seus olhos
Verdes de mar.
Que me olharam e tanto pediram,
Os raios ofuscaram e
Não subentendi sua fala.
Confusa, perdi seu sorriso
Empalideci de tanta ausência
E guardei seus rastros
Sob o guarda-sol.
Não sei que rumo tomou
O verde de seus olhos, estes
Que tentaram falar-me
Mas não entendi o que queriam e
A viagem que pretendiam eles.
Amanhã, abrirei o azul do céu
Sobre nós sem os frequentes medos
E seus olhos saberão cortar o silêncio
Dessa mudez forçada.



(Para o João, irmão querido)

Dalva Molina Mansano



(pARA O jOÃO, MEU QUERIDO IRMÃO)

HOJE NÃO





Hoje não tenho poema
Porque a poesia anda distante.
Não, não tenho hoje
Nada que me abale ou encante.





Dalva Molina Mansano

HÁ ESTRELAS DANÇANDO







A cantiga do vento impede-me
outra audição que não seja o som
melódico do noturno voo das palhas
que embalam a harmonia do quintal.
Há estrelas dançando no alto do meu céu,
alegre e reluzente coreografia
que corresponde belamente à melodia
Da peça harmônica que julgo, encantada,
Divinamente ser por anjos orquestrada.




Dalva Molina Mansano

ENTRE CHAVES E TRANCAS





Dobrou a esquina e desapareceu.
Na mala, poucas peças de roupas,
alguns livros e as lembranças
guardadas, involuntariamente,
na memória entre chaves e trancas.



Dalva Molina Mansano

sábado, 24 de novembro de 2012

DESVARIO





Tenho a face calma
E um diagrama desenhado
Em papel de seda
Com implicações sutis
Do outro lado do rio
A voz grave canta uma canção
Que me eleva em desvario
E me põe em contato com Deus



Dalva Molina Mansano

PÉROLA







Bem no fundo da xícara de café,
Descobri nosso mistério.
Repousava lá, diante dos meus olhos,
A pérola do meu pensamento
Enroscada no desenho deixado.
Guardei-a em concha
Límpida e viva, já sem mistérios.


Dalva Molina Mansano



NO LAÇO DE SUAS GRAVATAS








Naquela bagagem eu vi o peso da vida,
Pendia do braço como pedras retiradas
Do caminho, em velhos compromissos diários.

Sérios, são homens no laço de suas gravatas,
Carregando a volta já na ida calculada,
Atrás dos óculos e olhando para dentro.

Quanto carregarão além da pesada mala,
Haverá fardo a mais na sombra da memória
Ou o vazio guardado nessa falta de tempo.

Descubro que nada sei da humanidade,
Olhando o vai-e-vem frenético nas calçadas
E sinto a inevitável curiosidade.




Dalva Molina Mansano

SEM CABIMENTO





Na torta passarela, ante o claro vidro
Do meu olhar aturdido, a calçada
Orlada de quietas flores na manhã.

Entre elas, passa a face estagnada
Estátua caminhante só e malsã
Frio, morto e disforme semblante.

Não há bulha, não há movimento
Tudo é estático, sem cabimento.




Dalva Molina Mansano

BRASILEIRA FOI BARRADA NO AEROPORTO DE BARAJAS




Há pequenos fatos que nos incomodam e coisas consideradas de pequeno porte que nos atrapalham, mas que são fáceis de resolver, como uma pedra no sapato, por exemplo. É tão simples removê-la, para que continuemos a caminhar, normalmente.

Entretanto, desde o dia primeiro de dezembro deste ano, algo me incomoda muito mais que uma pedra no sapato. Algo que não se resolve com facilidade, pois depende de pessoas das quais a vida de outros está nas mãos.

Falo aqui da indignação que se apoderou de mim, quando li, nesta página de literatura, uma crônica que não é fictícia, mas que conta acontecimentos cotidianos do aeroporto de umas das maiores e conceituadas capitais mundiais, o de Madri, mais precisamente, Barajas.

Não posso acreditar em que seja cotidiana esta indecência da qual tomei conhecimento, pois é a terra dos homens que se lançaram ao mar e que adentraram terrenos alheios.
Assim o foi quando o genovês Cristóvão Colombo explicou à rainha da Espanha, na época, sobre o seu projeto em outro reino e esta o acatou, encarregando-o de levar a “boa nova” a plagas distantes, das quais tomaram posse e foram recepcionados e acolhidos, bem acolhidos, diga-se, até a presente data.

Esta crônica trouxe-me, também à memória, o episódio do bombardeio alemão sobre a cidade santa do país basco, Guernica, onde morreram 2.000 civis e 350.000 espanhóis tomaram o caminho do exílio. Foi-me impossível associar os fatos, porquanto, resguardadas as proporções, a dor da rejeição e da indiferença ao sofrimento permeia todo e qualquer indivíduo, seja de qual raça ou cor de pele for.

Como pode assim agir um povo que exportou tantos emigrantes em busca de melhores condições de vida, um povo que abriu novas civilizações com sua cultura e que sofreu as injúrias da guerra?

Recuso-me a acreditar em que a terra de meus antepassados, dos quais o sangue corre em minhas veias, em ritmo de “pasodoble” e de “flamenco”, age de forma tão deprimente junto a um povo que acolhe espanhóis de modo tão acolhedor, como foram meus familiares acolhidos, quando aqui aportaram.

Após tomar conhecimento de tão triste episódio ocorrido com a Sra. Tânia Maria da Conceição Meneses, professora conceituada em terras brasileiras, sinto-me apreensiva diante de possíveis acontecimentos, por mim , até então, considerados impossíveis.

Sabedora que sou de que o único erro desta cidadã brasileira foi amar terras espanholas, das quais é descendente por parte de pai e onde Deus escolheu para que um de seus netos viesse ao mundo.

O que me consola, diante de todo o relatado é que, conforme ela mesma diz, não podemos atribuir tamanha inoperância da paz diplomática a toda a gente espanhola, pois sabemos que é fruto de alguns operários de segurança mal orientados, os quais atropelam inclusive a justiça.

Dizer que o Brasil deve fazer o mesmo que eles fizeram, em retaliação, é atingir as raias da ignorância e igualar-se àqueles pobres de espírito que não souberam recepcionar a quem ama aquela terra sem exigências, apenas pelo prazer de amar.

Esperamos que a justiça seja prontamente edificada neste lamentável episódio e que a Sra. Tânia possa, ainda, escrever versos à terra de Cervantes.


Dalva Molina Mansano

PROFESSORES, ALUNOS E INDISCIPLINA




ESTE PRETENSO ARTIGO OBJETIVA DESPERTAR A ATENÇÃO PARA O PROBLEMA DA INDISCIPLINA NAS ESCOLAS. É UMA FORMA DE HOMENAGEAR OS PROFESSORES.


O princípio básico que deve reger o trabalho de qualquer cidadão profissional deve sempre ser pautado em seriedade, respeito e honestidade no desempenho de suas funções.
Preocupa sobremaneira o desperdício de horas, quando este envolve jovens e adolescentes em período escolar, porque o tempo é demasiadamente importante na vida e perdê-lo implica em desperdiçar oportunidades de crescer. Ocupar carteiras escolares sendo meros espectadores que nada edificam, significa atrasar-se em conhecimentos e situar-se entre aqueles que pouco podem fazer por si mesmos.

Recentemente, o Brasil apresentou os resultados obtidos pelos estudantes brasileiros ao serem avaliados e pudemos observar que os maiores índices de aproveitamento foram colhidos por escolas que valorizam a manutenção disciplinar. É de fácil compreensão esse melhor resultado obtido pelas escolas que priorizam a disciplina comportamental, já que esta oportuniza a reflexão e a organização do raciocínio de forma ordenada. A escola não tem que ser rígida a ponto de assemelhar-se a um quartel militar, mas necessita de disciplina suficiente para ser levada a sério.

Segundo Jean-Paul Sartre, os indivíduos são livres e essa liberdade os condena a tomarem decisões na vida. Estas são responsabilidades deles mesmos e os obrigam a ter uma existência verdadeira. Sartre disse, ainda, que a vida deve ter um sentido e que este deve ser atribuído também à escola, para que os alunos a vejam como algo importante e aprendam a não negar suas responsabilidades sobre coisas que fazem e pelas atitudes que tomam.
Não se trata aqui de concordância do panoptismo de Foucault, pois com o sistema panóptico, a liberdade perde a essência. O que se pretende com estas considerações é que a educação brasileira ofereça instrumentos para conscientização do estudante do que significa ter o livre arbítrio e usá-lo em benefício de si próprio, ao invés de atuar contra si como seu algoz.

Michel Foucault dizia que “As luzes que descobriram as liberdades inventaram também as disciplinas.” Ele pregava que a educação detém a possibilidade de modificar o corpo e a mente e que a escola “tem mecanismos que controlam os cidadãos e os mantêm na iminência da punição”. Para resolução dessa complexidade, o pensador criou o conceito de poder-conhecimento, dizendo que “não há relação de poder que não seja acompanhada da criação de saber e vice-versa”.
Partindo da premissa estabelecida por Foucault, Veiga-Neto afirmou que se pode agir contra o que não se quer e buscar novas maneiras de ser organizar o mundo.

Anton Makarenko pregava a concretização de um projeto educacional centrado na formação coletiva para a vida coletiva, sem o esquecimento, porém, dos princípios do autocontrole, da disciplina e do trabalho. Dizia que, ao invés da massificação e do utilitarismo, na escola deve ocorrer o aprimoramento individual e uma “Educação para a cultura”.

Trazendo as idéias desses pensadores da educação para a atualidade, seria de bom alvitre que nas escolas brasileiras o tempo gasto por alunos e professores em sala de aula tivesse o gosto e o resultado de algo que valeu a pena e que gerou os resultados
que se esperam quando horas são dedicadas entre muros escolares. Para isso, seria necessário que a orientação de Makarenko fosse acatada, quando disse que “é preciso mostrar ao aluno que o trabalho e a vida dele são parte do trabalho e da vida do país” e que “a tarefa da educação é torná-lo tão firme e seguro que, como um todo, ele já não possa ser desviado de sua rota”.

É imprescindível que o Poder Público tenha seriedade quando se propõe a pensar, falar e estruturar a Educação no país. Que delegue poderes para profundas transformações educacionais a pessoas realmente capacitadas para essa realização e comprometidas com o real sentido da Educação.

Já dizia Henry Adams que “o professor se liga à eternidade; ele nunca sabe onde cessa a sua influência”. Todavia, uma andorinha só na faz verão.
O primeiro passo para sérias mudanças na Educação brasileira será dado quando a sociedade passar a exigir do Ministério da Educação e do Poder Público a manutenção de educação de qualidade em todo o território brasileiro, principalmente oferecendo respeito aos professores sob todos os aspectos a que fazem jus.

Criar teorias simplistas para resultados mirabolantes, que partam de mentes de prodigiosos especialistas, confortavelmente instalados em ambientes com ar-condicionado, é algo que não combina com escolas onde faltam materiais básicos para o bom andamento das aulas. Tampouco combinam com a violência a que ficam expostos os professores que não encontram apoio das autoridades, sequer para manutenção da própria defesa física diante da indisciplina generalizada que impera nas escolas brasileiras. Que dizer, então, da obtenção de bons resultados?




http://educarparacrescer.abril.com.br/pensadores-da-educacao/
http://educarparacrescer.abril.com.br/aprendizagem/michel-foucault-307907.shtml
http://pt.shvoong.com/social-sciences/1632203-vigiar-punir-pan%C3%B3ptico-michel-foucault/
Consultas realizadas em 09.10.2011


Dalva Molina Mansano

ENTRE AS PAREDES DO PENSAMENTO





Ecoa entre as paredes do pensamento
Tudo aquilo que eu esperava de mim.

Oh, mente assombrada, sem mais escolta
(casa de minha infância), atenda
Dá-me o quintal e minhas ruas de volta.
Conspira comigo e restitui-me a prenda
De conviver, sorrindo, entre estrelas
Com a dominante verdade pura.
Quero comigo a ingenuidade de vê-las,
De, pueril, rir do palhaço, imatura
E de aceitar franquia de ingresso a mim.
Ai, mente endurecida em armadura
Tuas lembranças assim alvas, de jasmim
Perfumadas são flores de laranjeiras.
Que adornam dos meus portais o festim,
Levam-me de volta a alvissareiras
Promessas futuras que não têm fim.




Dalva Molina Mansano

ENTRE UM OLHAR E OUTRO






Entre um olhar e outro
Há uma pilha de sonhos
Imaginados em tom azul
Entre um olhar e outro
Perspicaz e desconfiado
O pulo do gato
E a humildade da ovelha
Na máquina ingrata do tempo
A mente teimosa atiça
O perigo que ameaça
Desabar em cachoeira
Risco um traço
Arrisco um palpite
Entre enxergar com um olho
Do gato
E sonhar com o outro
Da ovelha



Dalv Molina Mansano

A TI ENGANAS




Te enganas
quando imaginas
que não gosto das palavras
com que me presenteias.
Como de ti reclamar
se elas são as flores
que eu espero.
A ti enganas
quando não percebes
que o vaso está solitário
à espera de teu olhar
que apenas regue
as gardênias que te dei.
A ti enganas,
embora saibas
das canções que a ti canto,
cujo tom alcança o espaço
e invade teus ouvidos.
A ti enganas
de tudo que já sabes.


Dalva Molina Mansano

DIGO NÃO AO SILÊNCIO





Por que silenciar a dignidade
de viver ou morrer
já que o verbo é a última tentativa,
centelha vislumbrada de início
ou cinza de restos de bem-querer.
Alma exposta em fagulha,
- Existência sem lógica –
lancinante e esmagadora
razão de vida absoluta.
Não!
Digo não ao silêncio,
não me peça, que não obedeço
de antemão, sei da inglória luta,
mas o verbo existe irracional
na ponta da língua ardente
da emoção que por mim fala
grita, jamais cala.
Não silencio o que me escapa
da alma, vaza pelos olhos.
Eis a sensibilidade absurda
de meus versos em sol maior,
não silencio seus raios
Porque não posso.


Dalva Molina Mansano

O VELHO E O CÃO







Traz no corpo a vida morta, este homem
envelhecido e abatido pelo tempo,
que com branco avental o cobriu.
Caminha com o amigo e persistente cão,
único exemplar fiel de respeito a ele.
Ser desnudo de atenções humanas
senta-se nos bancos das praças
e dá bom-dia em desdentado sorriso.
Retrato em branco e preto do viver
desbotado, que pretendia fosse colorido




Dalva Molina Mansano

CÉU DOS IMPROVÁVEIS








Seis da manhã, a vida passa
em pernas apressadas,
o tempo corre atrás do minuto
perdido, jogado ao léu.
Na viela, o mundo subindo
e descendo em disparada
sob o sol ainda envergonhado.
Sem preocupação com o corre-corre,
tampouco com a vergonha do sol,
o casal, na cama da calçada,
por ânsia improvisada,
dorme o sono dos justos.
Têm por companhia as latinhas,
vazias, sorvidas na felicidade
do saber viver a doce mistura
de álcool e estrelas, adormecidos
e sorridentes sob o manto azul
e cúmplice do céu dos improváveis.




Dalva Molina Mansano

ETERNO NÉCTAR







Sinto-me leve de amores
Plena deles, que até flutuo
percebo teu enlevo em mim
E guardo-te, jóia preciosa,
Para olhar-te admiravelmente
na palma de minhas mãos.
Do vinho que sorvo,
és o sabor que fica
e da fruta que experimento
permanece o eterno néctar
a lembrar-te em meus lábios





Dalva Molina Mansano

CINZAS







Guardou as cinzas,
fez planos
de reviver a morada,
enfeitou ambientes,
acariciou móveis,
escolheu o melhor dormitório
onde aconchegasse
o antigo amor.
Repentinamente,
lembrou-se
da demolição,
o lar não existe.
Acordou.



Dalva Molina Mansano
Nov. 2010

ESTRELA AZUL







vagarosamente se apagam as brasas
da fogueira, na madrugada em cinzas
lá está a estrela, aquela bem azul
que há tantos anos me acompanha
tão densa que a posso tocar
puxo o manto do céu sobre mim
e adormeço entre brasas e estrela



dalva Molina Mansano

QUEBRANTO





Não, não cuido mais da poesia,
não planto flores e não faço versos,
para não semear discórdia vazia
colher dores em olhos imersos.
Melhor cultivar salsa e cebolinha,
temperar o insosso da vida
e não fenecer à espera, sozinha
da rega necessária e acolhida.
Arruda pra olho gordo e irritado,
um pé de comigo-ninguém-pode
que espante mau-olhado
e os estilhaços da bomba que explode.
Espada de São-Jorge para proteger,
alecrim que me segure o coração,
marcela para o sono me trazer,
camomila que acalme a aflição.
Pra tirar a cisma descontrolada,
melissa ou erva-cidreira, capim limão
miudeza sem eira nem beira, desavisada
malfadada, que altera a pressão.
Suavizar a dor e o sentimento
com erva-de-santa-maria e arnica,
fazer um poderoso unguento
que cure o mal da batata tiririca.
A pimenta bem vermelha
pra tirar inveja e coisa ruim
da erva - daninha, essa fedelha
que sozinha, destrói um jardim.
Flor eu gostaria de plantar,
Mas tenho medo que feneça
Sem o carinho de um olhar
E em seu ocaso eu entristeça.
Então, perco a poesia,
debalde, não vou mais procurar,
não vale a pena espalhar versos
e canteiros perfumar.
O caçador é implacável
impede a ave de voar,
perdoe-me, cântico adorável
não vou mais poetizar.
Pouca rega à planta é morte
assim, não semeio os sonhos meus
as ervas tem poder forte
porém, mais forte é Meu Deus.


Dalva Molina Mansano


CORES EM CADA PORTA






O material dourado dos sonhos
implementa a velocidade da nave
que enfeitada de flores coloridas, segue
reluzente e há um arco-íris de convite
derramando cores em cada porta,
entre o seu sorriso e o meu, o elo
sob ele, o risco triste e iminente
do mundo acordar sob raios e desabar




Dalva Molina Mansano

PRECAUÇÃO





Ardia naqueles olhos
O fogo da pimenta
Que lhe ficara na mão,
Causando choradeira.

Ao invés da ajuda benta
Ensinando a precaução
Para evitar a tormenta,
Cortaram a pimenteira.





Dalva Molina Mansano


sexta-feira, 23 de novembro de 2012

FATOS DISTOANTES - Pensamento VIII - Da série Comentários





Para Aristóteles, a Lei Natural deveria ser igual para todos os homens, fossem civilizados ou bárbaros. Kant dizia “ Sê uma pessoa e respeita os demais como pessoa”. Reale reafirma que o valor primordial é o do ser humano e que os valores imediatos (por serem essenciais) sobrepõem-se aos mediatos, de tal forma, que não pode haver solução de continuidade entre ambos. Todavia, fatos distoantes dos preceitos relativos ao Direito Natural acontecem em cada nação...



Dalva Molina Mansano

NO BAJA LA GUARDIA - Pensamento VII - Da série comentários




El corazón no baja la guardia y dio tiempo a palabras que tengan sentido; luego, que vengan ellas hasta que traigan permiso para vivir de nuevo.






Dalva Molina Mansano

NAS ASAS DE UM ANJO








Nas asas de um anjo,
o pensamento gira
sobre terras e mares.
Pousa no quintal
de fantasias e sonhos,
aquieta-se em seus olhos.




Dalva Molina Mansano

NEM OSAMA NEM OBAMA





O anúncio da morte de Osama Bin Laden leva-nos a profundas reflexões sobre fatos tão sérios que acontecem no mundo, desde sempre. A morte traz com ela uma sensação de vazio muito grande, em relação ao espaço que o morto ocupava. No caso de Osama, especificamente, o que se nos afigura é o temor de, nesse vazio da morte, entrar a banalização do assassinato. Seja quem for esse que desencarna, tirar-lhe a vida não é obra que deva ser realizada por mão humana. É certo que houve uma programação reencarnatória de Osama, feita por ele mesmo, e que se assim o foi, motivos há. Teria que acontecer, só não sabemos se deveria ser dessa forma. É péssima a idéia de que alguém deva ser condecorado por um assassinato!
Há um texto escrito por Ricardo Vélez Rodriguez em que ele diz que “para a vulgar forma de entender as coisas, há oposição radical entre mito e pensamento lógico-discursivo”. Eu tento trazer esse pensamento para o terreno dos fatos históricos atuais. Digo que há oposição radical entre o mito e o que é um homem realmente.
Conforme Vélez, “O primeiro pertenceria ao terreno do imaginário. Seria uma estória. O segundo é o reino do objetivo. O mito é um paradigma, um modelo. É o exemplar em que se alicerça toda a atividade e toda a eficácia. No contexto das várias tradições mitológicas, isso é entendido de diferentes formas, como acontece, por exemplo, nos rituais de repetição...”.
Usei essa citação, porque me veio à mente a temerária hipótese de que esse caso venha a repetir-se, tornando Osama um mito para muitos e, em contrapartida, mostre essa morte como algo que aconteceu por absoluta necessidade de que haja um herói, no caso o Obama.
Concluimos que nem Osama deva ser mito, nem Obama deva ser herói, já que seus feitos passam a anos-luz do que se espera dos homens, enquanto seres inteligentes e dotados de princípios humanos.
Fazendo um paralelo, uso para essa morte, as palavras de Samuel Beckett, em sua obra Malone morre: “Depois deste banho de lama, vai ser mais fácil eu aceitar um mundo que minha presença não tenha conspurcado [...] vou abrir os olhos, me contemplar tremendo [...] dar a meu corpo as velhas ordens que eu sei ele não é mais capaz de executar, vou consultar meu espírito destinado à ruína e ao fracasso, vou estragar minha agonia ao máximo para poder vivê-la melhor, já longe do mundo, que, por fim, abre seus lábios e me deixa partir.” (Tradução de Leminski).
Essa é uma pequena fatia da história contemporânea, da qual devemos tirar aprendizados conclusivos a respeito da inutilidade e das terríveis consequências causadas pela imensa gana de supremacia dos poderes, em detrimento de incautos e/ ou inocentes civis.
Esperamos que fatos dessa natureza não se repitam e que os homens parem de escrever a história da humanidade “con tinta sangre”.



REFERÊNCIAS:

VÉLEZ RODRÍGUEZ, Ricardo. Tópicos especiais de filosofia moderna, Juiz de Fora: EDUFJF; Londrina: Editora da UEL, 1995.
BECKETT, Samuel. Malone morrre, Códex (Série Grandes Letras) – Tradução de Paulo Leminski, 2004.



Dalva Molina Mansano

NADA É PERDER




Contigo nada é perder
Tudo é ganhar e não sou só
Por ti mergulho entre duas águas
Abraço o vento e consigo voar
Permito tua ida
Porque contigo vou
Fazemos nossos caminhos
Com os pés no chão
De mãos dadas
contigo não sou só, alcanço tua margem
piso em terra firme porque vieste aportar



(Para minha filha, Carla)





Dalva Molina Mansano

TUDO É GANHAR






Como chegar à tua borda
Como chegar à tua margem
É o que me pergunta a canção
Fazemos os nossos caminhos
De mãos dadas, com os pés no chão.

Nossos olhos falam sem palavras
Desde a eternidade sabemos de nós,
Pois sempre nos tivemos
Entre águas ouvíamos de Deus a voz.

Bênçãos Divinas recebemos
Nasceste comigo em ti, gravada
porque em mim estavas antes
A ti dei tudo que tive, a paz herdada

E dou o que tenho em mãos errantes
Com raios de sol ou chuva anunciada
Nada é perder, tudo é ganhar
Ensino-te as coisas do paraíso
Vou, sim, até a tua borda nadar.



Dalva Molina Mansano

ASAS DE UM ANJO







Eu já lhe disse tanto do meu amor,
Quanto mais digo, penso que não foi tudo
Pois meu coração tem muito além.
Respondo a todas as perguntas,
Dou a você tudo que tenho
E o que eu não tenho, vou buscar.
Digo que abraço os braços do vento
em resposta à canção e voo
o mais alto possível para conduzi-la
ao sublime espaço dos anjos.
Você é o meu chão e o meu céu
O abraço reconfortante no final do dia
Terno, cálido e suave bálsamo de paz
Com a verdade de seus olhos.
Suas mãos me conduzem nas manhãs,
Seu beijo me adormece e fala de amor,
De sua voz ouço a mais bela canção.
É assim que você acalanta este coração
Que pulsa juntinho do seu
E canta a cantiga de ninar mamãe.




Dalva Molina Mansano

TAPEÇARIA





De minha janela vejo o pé de ipê
A exibir a bela tapeçaria além dos telhados
Dispensou as folhas, transformou-se
Em flores completamente
Neste momento, é apenas meu
Estamos em comunhão

Ele a irmanar-me à natureza
Enfeita o mundo para os meus olhos
Eu no ápice da compreensão Divina
Agradeço a Deus por esta dádiva
De transformar-me também completamente
Em olhos que enxergam com a alma




Dalva Molina Mansano

ÍNTIMA CANTIGA





Maria trança sonhos,
Enrosca figuras
Em mosaico assimétrico,
Sozinha na multidão.

Absorta, perde-se
Entre imagens e pensamentos
Que não se encaixam
Em sua imaginação.

Cantarola uma íntima cantiga,
Isolada do burburinho,
Sobe em seu tapete
Colorido de ilusões.


Desaparece com a ciranda antiga
E encontra-se no descaminho
Do mosaico que sonhou livre
Em suas abstrações.


DAlva Molina Mansano

CABELOS DE ARROZ




Eu não sei o que fazer
Do teimoso desalinho
De meus cabelos, a dizer
Recados de ventania
De arroz e bem fininhos,
Raios de seu sol a aquecer
A vida em manhã fria.





Dalva Molina Mansano

ESCORRE LISA






De tanto rir,
Chorei.
Tão gostoso
Chorar de rir.
A lágrima nem dói,
Escorre lisa
Sem rasgar a pele.
E pede mais,
Pede bis
Com aplausos
Da alma
Agradecida
E feliz.




Dalva Molina Mansano

AVE RARA





Ela é tão meiga
E doce.
Tão pura,
Honesta
E sincera.
Os olhos confirmam
Os lábios.
A voz firme,
Segura,
Afável,
Ao mesmo tempo.
Ave rara.
Beleza original.
O sonho
Em realidade
Bem pertinho,
Que se toca com as mãos.




(Para minha filha)





Dalva Molina Mansano

DECIDO PELA ALMA






Há um ninho
Com filhotes
Agitados.

Não sei
Qual alimento
Dou a eles,
Se o do corpo
Ou o da alma.

Decido pela alma,
Para que suportem a fome física
E saibam buscar sustento,
Batendo as próprias asas.



Dalva Molina Mansano

ÉS O CLARO DO DIA




O sol está em torno de ti,
Por isso, brilhas tanto.

Em círculos de raios,
És o claro do dia.

Aqueço-me
Em ti,

Que me emprestas
Teu calor.

Oh!Luz natural
De natural lei

Que nos uniu.



Dalva Molina Mansano

NÃO MAIS

Não mais fica no chão
Quem aprendeu o segredo do voo
E vê a renda das praias
Nas asas da gaivota.

Não mais perde o fôlego
Quem da poesia
Tira o ar que respira
E vive dela.

Não mais esquece o oceano
Quem viu o encontro
De céu e mar
E traçou seu destino no horizonte.

Não mais esquece a canção
Quem adormeceu ouvindo
A voz do amor pianíssimo
E deixou-se embalar fielmente.

Não mais.
Pois tudo que não seja assim
Perde o sentido
E é morte.



Dalva Molina Mansano

"IMPREVISÍVEL E ARREDIA" - Pensamento VI- Da série comentários-

Ela é mesmo lisa como um peixe,
envolve feito cobra e quase esgana!
De repente, num lance rápido,
sai nadando suave e desaparece,
enganando os olhares.
Foge em profundezas,
reaparece à flor d´água
"imprevisível e arredia",
ah, poesia enguia,
danada, vadia,
convidadeira da lua
em agonia!
Ave, que linda essa danada
que convida e treme!



Dalva Molina Mansano

ADMIRO EM TI




É isso que em ti admiro
A tua descida do trono
Com toda galhardia
Da humildade
É que encaras a briga
E não foges da raia
Porque não precisas
De que falem por ti
Tens a voz
Dos que sabem
E não temes
O desespero dos inimigos
És grande, és forte
E recomeças
Quando todos desistem



Dalva Molina Mansano

ANOITEÇO



Nas paredes, o quente dos raios
e a casa de operárias portas
no trabalho de obedecer.

Das janelas abertas de cinema,
o azul do lago espalhando verão
reflete significativo voo.

Em clara tarde, anoiteço.




Dalva Molina Mansano


domingo, 18 de novembro de 2012

O MENINO E SUA LANCHEIRA



fOTOS: Google


(Conto um conto e não aumento um ponto)

O MENINO E SUA LANCHEIRA

Pelas minhas mãos, ia o menino e sua lancheira.
Brilhavam os seus olhos com a mesma intensidade
com que ele se agarrava em cada dedo meu.
Doía-me aquela separação momentânea a que éramos forçados.
Lágrimas furtivas corriam de nossos olhos.
Jamais me esquecerei daquele rostinho na janela,
quando retornei para buscá-lo,
permanecia com o olhar da despedida,
esperando por mim.
Pus-me a pensar em quanto deveria ter sofrido aquele pequeno coração,
que não conseguia entender ainda o motivo daqueles momentos distantes,
talvez um fato sem nexo para ele.
Houve o decisivo dia, em que a caminhada deveria se iniciar;
houve o encontro dos olhos, as nossas mãos nervosas
e suadas que não se desenlaçavam.
Houve a dor... Aconteceram os passos em direções opostas.
Da lancheira, ficaram os sabores de cada tarde;
da janela, o intenso e perscrutável olhar;
das mãos que se soltaram, ficou a confiança no porvir;
dos corações, o amor que jamais enfraqueceu;
dos passos seguindo setas contrárias, a certeza
de que assim são traçados os caminhos em busca do saber.
O menino transformou-se em homem
e o homem escolheu o seu destino.
Hoje, nossas mãos novamente se enlaçam
e, num abraço, juntamos nossos corações emocionados.
Batem eles forte, pela conquista obtida,
desde os passos com a lancheira,
aos atuais, carregando a maleta do profissional.
Solto suas mãos e as entrego para o mundo,
a fim de que cumpram, com o calor delas,
a jornada a que destinadas foram,
Sob as Bênçãos Divinas.


Dalva Molina Mansano
Novembro/2012

sábado, 17 de novembro de 2012

PADROEIRO DOS PRODUTORES DE VINHO

AI, ESTOU EMOCIONADA,
ENCONTREI SÃO MARTINHO.
A RAZÃO ESTÁ EXPLICADA
DE EU GOSTAR TANTO DE VINHO.

Dalva Molina Mansano
2012

ANIVERSÁRIO DE MINHA AMIGA, CELÊDIAN

Foto Google



Celêdian, hoje é seu dia e data de todos nós sorrirmos para os céus, em agradecimento!
Lembrei-me de você logo ao amanhecer e fiquei pensando nas palavras que eu escolheria para lhe dizer. Em vários momentos interrompi meus afazeres, em busca da palavra certa, daquele que seria o exato vocábulo para este momento. Eu busquei o termo consubstancial, que se transformasse na síntese de Celêdian Assis e que pudesse expressar o que há de bonito e de grandeza no fato de alguém simples e puramente SER.
É isto o que sei de você, minha amiga: há em sua completude um misto de características que se entrelaçam e formam a essência de alguém que, instintivamente, sabe exercer a elevada concepção de SER em plenitude.
Penso que os aniversários devem ser festejados com alegria extrema, pois servem como data de escolha para os agradecimentos. Agradeçamos, então, pela vida presenteada e pelo dom de se saber a felicidade de ser o que se é.
Por isso, minha amiga mineira, que também carrega o ouro em pó no olhar, nem sei se consegui encontrar a palavra certa, mas trago a você um abraço que vem de longe e que é dado com todo o carinho e consideração. Neste abraço, eu agradeço a Deus pela vida que Ele lhe deu e pela chance que tive de conhecê-la, assim, do jeitinho que nos conhecemos.

Entrego a você, com laços de fita e papel-presente, os versos que seu dia proporciona:

Para o céu aponta o vértice,
chuva dele precipita
em abençoados dízimos .

A seara acolhe o rio em dádivas,
no chão, bênçãos em córrego,
levadas em nau de súplicas.

Fulge o desejo em raios múltiplos,
na terra fecha-se o ângulo
que aponta para o púlpito.

Ali despontam os símbolos
que iluminam este sábado:
alegrias de alfa a ômega.

Assim se faz de súbito
o brilho, que de tão rápido
dá-nos a festa sincrônica.

Para o céu aponta o vértice,
Chuva dele precipita
festejamos em uníssono.


Parabéns, Deus a abençoe!

ESQUECIMENTO




Por que o esquecimento?
Há coisas e fatos que nos surpreendem e molestam nossa alma, sem que possamos atinar com os motivos que os levaram a cabo. O esquecimento é um exemplo disso e ele nos acontece de maneira involuntária, à revelia do nosso desejo.
Black-out total, desligam-se as conexões, voa a lembrança.
Que fazer em tal situação?
Diria Adoniran Barbosa: "NADA!"
Meu pai diria:"o que não tem remédio, remediado está."
Pronto! Esquecido!


Dalva Molina Mansano
15/11/2012

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A POESIA




Ela faz um passeio sob o sol,
Fustiga víveres,
Mexe nas grotas,
Acompanha a despedida
Dos últimos raios,
Enrosca-se neles
E foge do frio

Faz malabarismos,
Cruza as pernas
Sentada
No vai-vem do trapézio
E sorri
O mais rasgado sorriso
Aberto,
Que vem e que volta
Balançando
E acenando em ameaçadas
Quedas,
Segura-se nas cordas,
Não cai
Firma-se no embalo,
Joga-se
De cabeça para baixo,
Balança
E sorri atrevida,
Ameaça
Pra frente e pra trás,
Senta-se,
Solta os braços,
Atira-se,
De costas e assusta.
Finge
A queda e volta
Sorridente,
Diminui a força
Aos poucos
Até que lentamente
Para.

Escorrega corda abaixo,
Pousa na terra
Descansa sob o céu da noite,
Paira sonolenta e cansada.
À luz da lua
Renasce em aurora
Lenta e colorida.

Faz rastros em minh’alma,
Navega em minhas veias,
Convida-me ao passeio de volta.
De mãos dadas sob o sol,
Junto-me a ela
E ao cantar do galo,
No terreiro escrevemos versos.

Dalva Molina Mansano

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

CONJECTURAS




Esqueço-me do meu umbigo
E ponho-me com os olhos pregados no espaço,
Tenho uma conversa comigo
Em conjecturas, perguntas faço.

Quero, profundamente, quero
Saber se ética é algo que aprendemos
Ou se com ela nascemos,
Se agir eticamente também
Significa em princípio
Agir livremente
Em conformidade com o bem.

Responda-me Thomas Hobbes
Mostre-me em Leviatã
Se pela natureza da liberdade
Podemos matar o outro
Em nome do talismã
Apelidado de igualdade.

Cometer um crime tem dolo
Ou apenas culpa tratável,
Busque a máquina jurídica
Ajuda psicológica
E mostre-me a avaliação fatídica
Do ser ou não responsável,
De acordo com sua ótica.

Apelo à língua que designe,
Já que só ela consegue,
A força do ser e do estar,
Para que eu não peque nem negue
De Sartre dita a verdade
No imediato pós-guerra,
De que do homem a liberdade,
Igual duelo com espada,
É inexorável condenação na terra
E que, por ser livre, o homem é nada.

Sendo todos iguais, segundo Hobbes,
Abrimos mão da igualdade,
Se sairmos do estado de natureza.
O que é bem, o que é bom
Talvez as resposta esteja
Em sermos éticos de antemão.



Dalva Molina Mansano

domingo, 11 de novembro de 2012

O ASSASSINATO COMETIDO POR VIRGINIA WOOLF



Foto: Google

Eu não tenho medo de Virginia Woolf, o que sinto por ela é uma enorme admiração.

O ASSASSINATO COMETIDO POR VIRGINIA WOOLF

Hoje escolhi um assunto que me pudesse tirar do normal dos fatos. O cotidiano consome a minha paciência, sempre fui assim. Tenho imensa facilidade para me cansar rapidamente das coisas em volta e de fatos repetitivos. Quando eles, os fatos, causam-me enjoo, abandono-os imediatamente e abstraio.

Hoje, especialmente, nessa minha abstração, lembro-me de Virginia Woolf, que em 1905 já conseguiu matar um fantasma que lhe aparecia “sorrateiramente”, cujas sombras das asas pousavam sobre a página que ela escrevia. Chamou esse fantasma de Anjo do Lar e afirmou que conseguiu matá-lo, embora considerasse ser “muito mais difícil matar um fantasma do que uma realidade.

Entendamos Virgínia: sua profissão era a literatura com a qual teve contato muito cedo, pois aos vinte anos já era uma crítica literária experiente e pertencia ao grupo de vanguarda intelectual, que reunia artistas e escritores em Londres, o grupo denominado Bloomsbury. Com suas obras, reinventou a narrativa ficcional moderna.
Em janeiro de 1931, foi convidada pela Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres, para fazer palestra sobre sua profissão e sobre as experiências de mulheres profissionais. Disse que tinha como profissão a literatura e que esta era a que menos experiências específicas oferecia às mulheres.

Segundo ela, escrever era uma atividade respeitável e inofensiva, pois não interferia no orçamento familiar. Bastava-lhe uma caneta e um papel. Portanto, o baixo custo fez com que as mulheres escritoras dessem certo. Só por isso. Ela “era uma moça no quarto com uma caneta na mão. Só precisava mover aquela caneta da esquerda para a direita.”
Com o primeiro salário recebido do jornal para o qual escrevia artigos, não comprou pão, tampouco pagou o açougue. Comprou um gato persa. “Existe coisa mais fácil do que escrever artigos e comprar gatos persas com o pagamento?” Por isso, “não mereço muito ser chamada de profissional”. Filha de família abastada, pouco lutou pela subsistência.

Ao escrever uma resenha sobre um romance de escritor famoso, percebeu, imediatamente, que teria que combater um fantasma de uma mulher, a quem deu o nome de O Anjo do Lar. Tal anjo aparecia entre ela e o papel, enquanto escrevia resenhas. Virginia matou-a, por lhe ser extremamente difícil conviver com aquele espectro a atormentá-la.

Assassinou aquela mulher extremamente simpática, encantadora e altruísta, que se sacrificava todos os dias. “Se o almoço era frango, ela ficava com o pé”; se havia ar encanado, era ali que se sentava, para proteção dos outros;” seu feitio era nunca ter opinião ou vontade própria”. Naqueles dias, toda casa tinha seu anjo.
Assim que Virginia pegava a caneta para escrever sobre um romance escrito por um homem, vinha o fantasma a lembrar-lhe que aquela obra fora escrita por alguém do sexo masculino e que ela deveria ser afável e meiga, lisonjeá-lo, enganá-lo e jamais deixá-lo perceber que tinha opinião própria. Enfim, esse fantasma tentou guiar-lhe a caneta.

Diz a escritora que teve como mérito, que considera único, o fato de conseguir esganar aquele fantasma. Agarrou-a pela garganta e, se fosse preciso, no tribunal diria que assassinara por absoluta defesa própria, pois se não a matasse, ela arrancaria o coração de sua escrita ou a induziria à mentira. Fora difícil, mas a matou. A cada momento em que ela pegava a caneta e lhe aparecia o Anjo do Lar, atirava-lhe o tinteiro e impedia-lhe a interferência. Demorou, mas morreu aquele fantasma.

Segundo ela, matar o Anjo do Lar era imprescindível a uma escritora, pois havia de livrar-se da falsidade e, simplesmente, ser ela mesma.
Disse, ainda, que levaria muito tempo para que uma mulher pudesse escrever um livro sem se deparar com um fantasma para matar ou com uma rocha para enfrentar. Se na literatura, que era profissão mais livre que havia, era assim, o que se poderia dizer de outras profissões?

Saio de minhas abstrações e me pergunto se hoje, tantos anos pós-Virginia Woolf, a mulher, em geral, já está livre dos fantasmas que lhe cobram posturas em suas profissões. Pergunto-me também se a profissional das letras realiza o sonho de todo romancista, isto é, o desejo de ser o mais inconsciente possível, induzindo-se a um estado de letargia constante, que consiga escrever em total transe, livre de fantasmas patrulhadores.

Só nós, mulheres, podemos decidir pelas respostas, já queVirginia Woolf e outras antes e depois dela já facilitaram os nossos caminhos.



(Crônica inspirada por artigos que versam sobre vida e obra de grandes mulheres, escritos pela escritora/poetisa sergipana, Tânia Meneses, a quem dedico a essência desta crônica, pela semelhança que há entre elas. )


Dalva Molina Mansano
11 de nobembro de 2012
às 15:31



Fonte:
Texto Profissões para mulheres (postumamente publicado em A morte da mariposa, 1942.
Woolf, Virginia, 1882 – 1941
Profissões para mulheres e outros artigos feministas. Tradução de Denise Bottmann. _ Porto Alegre, RS: L&PM, 2012. 112 p. (Coleção L&PM Pocket)

SINFONIA DENTRO DE CASA


Foto: google



sinfonia dentro de casa
vermelho da alegria
sol janela a dentro
brisa pela porta
branco da paz
só nossa
aquarela
filhos




Dalva Molina Mansano

sábado, 10 de novembro de 2012

UM GOSTO DE DOMINGO




Estou pensando neste domingo que, como nos desejou uma amiga no Face, tem gosto de domingo.
Sim o meu está com gosto de domingo. Explico:
Acordei mais tarde que de costume (porque hoje é domingo, parafraseando Vinícius) ao som de suave......s músicas.
Tomei o café vagarosamente (porque hoje é domingo), enquanto olhava as árvores floridas além da janela. Boas conversas entremeavam o café. Lemos o jornal tranquilamente (porque hoje é domingo) e folheei um folder mostruário de jóias. Dei uma passada de olhos pela revista semanal, que lerei detalhadamente no correr da semana, pois assuntos desagradáveis do país não leio hoje (porque é domingo).
Em seguida, fomos passear no calçadão (porque é domingo) onde há uma feirinha de artesanatos e lá compramos pão caseiro e deliciosas bolachas. Na volta, passamos na revistaria, onde comprei um livro de Neruda (Livro das Perguntas) . Ele já me deliciou com a página que aqui transcrevo:

LXXII

"SE TODOS O RIOS SÃO DOCES
DE ONDE TIRA SAL O MAR?


COMO SABEM AS ESTAÇÕES
QUE DEVEM MUDAR DE CAMISA?

POR QUE TÃO LENTAS NO INVERNO
E TÃO PALPITANTES DEPOIS?

E COMO SABEM AS RAÍZES
QUE DEVEM SUBIR PARA A LUZ?

E LOGO SAUDAR O AR
COM TANTAS FLORES E CORES?

SEMPRE É A MESMA PRIMAVERA
A QUE REPETE SEU PAPEL?"

Aí estão as perguntas que Pablo Neruda nos faz e para elas ainda não encontrei respostas. Só sei que é domingo e com um delicioso sabor de domingo misturado com poesia!

Dalva Molina Mansano
Novembro/ 2012

LUTO COMIGO






Começa a semana.
Postei linda música, com o intuito de um bom começo.
O Face pede para que eu diga o que penso, mas se eu dissser totalmente o que penso, caio no normal das coisas desprezíveis e me igualo aos que tanto pregam e pouco fazem que seja condizente com o que pregam.
Sei que não é esse o caminho que devo seguir.
Tenho aprendido tanto com a doutrina por mim escolhida, porém percebo que o instinto humano é mais ferino que o que possamos imaginar. Então, luto comigo, pois sou minha maior inimiga e com esta tenho que medir forças, para não cair no comum das gentes e, assim, fugindo das tentaões humanas, eu deverei aplicar honestamente o que Jesus me ensina.
Difícil? claro que é difícil! Pois fremem em mim o ranço da iniquidade e o deplorável resquício de sentimentos abjetos. Contra isso eu luto e, neste momento, ergo uma prece ao Pai, implorando que não me permita cair na tentação de julgar os outros e que me inspire para que eu saiba mostrar aos arautos da verdade que o verdadeiro bem está em ser bom e humilde.
Assim seja!

Dalva Molina Mansano
05 de novembro de 2012