A linguagem dos olhos é algo fenomenal.
Dizem por aí que eles espelham a alma em eloquente comunicação.
Constantemente me pergunto sobre o que diz o olhar das pessoas e procuro interpretar muito mais os olhos delas que as palavras que saem de suas bocas. É um hábito que adquiri na infância, talvez porque meu pai falava comigo no silêncio dos olhos. Eu sabia exatamente quando sua boca dizia sim e o olhar, não. Ou vice-versa.
Eu preferia atender à mensagem da voz de dentro, era sempre a mais coerente e raramente errava.
Leio hoje nos jornais sobre o novo filme de Steven Spielberg, Cavalo de Guerra, indicado (entre outros) ao Oscar deste ano.
A produção originou-se das lágrimas de Spielberg, quando
este assistiu à peça sobre a trama, que fora adaptada do livro de Michael Morpurgo e encenada pelo National Theatre de Londres.
Pergunto-me o que teria (desta vez) provocado as lágrimas
de um diretor cineasta, que já emocionou inúmeras vezes o
público. Basta que nos lembremos da sensibilidade exposta
em ET, da indignação provocada por Amistad, da saga aventureira de Indiana Jones, e de várias outras produções.
Descubro nestes duros tempos, em que imperam o cinismo, a violência gratuita e o individualismo, que ainda resta esperança para a humanidade. Algo filtrado pelo olhar do cavalo, um simples animal que em trincheiras da Primeira Guerra Mundial era mensageiro de amor e paz.
Então, volto à questão do que dizem os olhos e reflito sobre o que vi no tão intenso, profundo e significante olhar de Omar Sharif, quando representou o poeta russo Iúri Jivago, em sua muda fala de amor por Lara, interpretada por Julie Christie. Sempre aproveito as férias para rever bons filmes e compreender mensagens deles que a juventude me impedia quando de seus lançamentos.
Percebo agora, também, que a juventude é o melhor estágio de nossas vidas, mas que a sabedoria vem com o tempo e, na falta de vivência, muito se perde enquanto somos jovens.
que levaram a produção dirigida por David Lean a conquistar cinco premiações
do Oscar. Percebi claramente as causas e as conseqüências pelas quais Boris
Pasternak (prêmio Nobel de literatura) não pode levar seu romance até o povo russo.
Pasternak inspirado em Tolstoi e Dostoievski escreveu um romance de valor histórico em que mostra o drama vivido pelos russos após a Revolução, entremeado pelo romance entre o poeta Iúri e Lara, com a verdade lírica das gerações que o precederam.
O nome Jivago (de jizn, vida; jiva, vivo) é a pura demonstração da importância da vida em sua essência. Tal como Spielberg mostra a importância da esperança pela vida em sua plenitude. Assim, correlaciono olhares e vidas. Mais que tudo, nessa volta ao cinema de outra época, compreendi perfeitamente o que diziam os olhos poéticos do Doutor Jivago afastado de Lara, em que transparecia a dor do amor, impossibilitado de sobrevivência. Tanto disseram aqueles olhos de Iúri vazando pelas janelas, percorrendo as geleiras dos Urais! Intensos de vida retida e contida, gritando silenciosamente pelo amor de sua Lara. Olhos de Jivago, olhos de vida teimosa de esperança, como esta que um simples cavalo procura transmitir: amor, esperança e paz.
Realmente, fenomenal é o que se diz na mudez das falas.
REFERÊNCIAS: JL - Jornal de Londrina, 15 de janeiro de 2012, n.o 7.039 (p.18).
Filme Doctor Zhivago (Metro-goldwuin-Mayer)
Pasternak, Boris. Doutor Jivago, Trad. Zoia Prestes, Rio , 2008, BestBolso.
Dalva Molina Mansano
Janeiro de 2012


Gente q coisa mais linda e chique , obrigada Dalva é uma honra para mim amei.
ResponderExcluirParabéns.Júlias
Muito obrigada por nos presentear com esta crônica que fala da linguagem do olhar, a mais verdadeira linguagem .Aquela que não pode enganar,que não trai e que transmite o mais profundo sentimento do ser. Adorei Dalva.Parabéns.
ResponderExcluirQuerida Dalvinha, meu olhos brilham de alegria com a sintonia do que pensamos sobre essa linguagem mágica doolhar.abraços!!
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