Muitas ideias surgem quando se lê algo representativo de crenças oriundas da religiosidade de um povo. Essas ideias assomaram em minha mente, após a leitura do poema Africanidade, da escritora e professora sergipana, Tânia Meneses.
O texto, postado na escrivaninha da autora, no Recanto das Letras, traz com ele a demonstração da forte influência dos imigrantes africanos sobre o povo brasileiro. Influência que seria, segundo Lima Barreto, responsável pela unidade desta nação, verificados o trabalho e a cultura por eles aqui implantados.
Africanidade
Melhor invocar um orixá
Dançar ao som dos afoxés
Tomar passes
Queimar incensos
Em rituais de pais e mães de santo
Vestir-me de branco
Frangos no terreiro depenar
Pipoca
Acarajé
Caruru com todo tipo de tempero
Os búzios na peneira espalhar Acompanhar Iemanjá
Saudar Jorge guerreiro
Numa canoinha no mar
No terreiro me manifestar
Que é pra ver
Se dessa sina de poeta
Consigo me despegar
(Tânia Meneses)
Lima Barreto, em seu Diário Íntimo, afirma que essas influências vão além do exotismo das imagens acerca da África e que são positivas para a formação da nação brasileira. Ele, que fora marginalizado por ser mulato, pobre e doente e que, por isso, sofreu injustiças sociais e raciais, espelhou em sua obra a percepção da discriminação e o sofrimento por ela causado.
Esse resgate positivo da africanidade em terras brasileiras, apontado por Lima Barreto, foi corroborado por Gilberto Freyre em sua obra Casa Grande e Senzala, onde ele afirma que os povos africanos são nossos principais formadores e que foram grandes agentes sociais. Freyre sofreu ataques e foi acusado de “saudosista do tempo da escravidão”, entretanto, isto não deprecia suas colocações nem afeta a realidade dos africanos que aqui vieram. Em seus conceitos vê-se a confirmação da assertiva de Barreto, quando diz que o africano é “o grande fator da nacionalidade brasileira e que, com sua presença e trabalho, deu estrutura, formação e unidade à nação”. E afirmou textualmente que “todo brasileiro traz na alma e no corpo a sombra do indígena ou do negro.”
Voltando ao tema gerador destes escritos, quanto à religiosidade, sabemos que, sob o ponto de vista da africanidade, o passado tem papel chave sobre ela, porquanto a ancestralidade é fato preponderante em seus ritos. Os fundamentos desta conclusão devem ser apoiados na história dos povos africanos com linhas filosófica, sociológica e psicológica afrocentradas.
Conforme Renato Nogueira dos Santos Jr em seus estudos sobre os afrodescendentes, a cultura religiosa africana, enfatiza o alto nível de espiritualidade e envolvimento ético, a harmonia com a natureza e a veneração pelos ancestrais. Cada nação africana tem como base o culto a um único orixá. Entretanto, no Brasil houve a junção dos cultos, a qual foi motivada pela importação de escravos, que ficavam agrupados em senzalas e, por isso, nomeavam um zelador de santo, conhecido como babalorixá, se masculino e yalorixá, se feminino. Clarival do Prado Valladares em seu artigo «A Iconologia Africana no Brasil», na Revista Brasileira de Cultura (MEC e Conselho Federal de Cultura), ano I, Julho-Setembro 1999, p. 37, afirma que o «surgimento dos candomblés com posse de terra na periferia das cidades e com agremiação de crentes e prática de calendário verifica-se incidentalmente em documentos e crônicas a partir do século XVIII». Considera ele que seja difícil saber de documentos que aprovaram as práticas e os rituais africanos e que o documento mais remoto a comprovar sua tese seria de autoria de D. Frei Antônio de Guadalupe, Bispo visitador de Minas Gerais em 1726, divulgado nos «Mandamentos ou Capítulos da visita».
O Candomblé não deve ser confundido com Umbanda, Macumba e/ou Omoloko, outras religiões afro-brasileiras ou outras de origem Yorubá, pois estas foram desenvolvidas independentemente do Candomblé. Os africanos de origem banto, sobretudo os que viveram em Luanda e em outros centros de colonização portuguesa, tiveram contato com o catolicismo ainda na África. Isto permitiu que, com maior facilidade, surgissem no Brasil os ritos com estrutura africana, todavia com a presença de elementos católicos.
Evidencia-se, portanto, a influência da cultura afrocentrada estabelecida no Brasil, já como elemento formador, conforme enfatizaram Lima Barreto e Freyre.
O poema de Tânia Meneses reporta-nos a muitos poetas, de origem africana ou não, que elevaram seus feitos poéticos consubstanciando a africanidade latente em terras brasileiras. Castro Alves, por exemplo, além de seus famosos poemas em que demonstrava indignação diante da escravidão negra exercida no país, no século XIX escreveu a letra da música Tirana, em que o eu-lírico apaixonado declara seu amor pela escrava Maria. Esta, talvez a grande representante de tantas Marias que pariram moleques nas senzalas, miscigenando o povo que se formava.
A seu jeito, cada literato e/ou artista mostrou a sociedade que se foi formando, e mais uma personagem feminina ( de Aluísio), representa esse universo. Livre e namoradeira, a mulata tipicamente brasileira , cheirosa e dengosa, foi colocada na galeria dos que formaram o retrato social do Brasil: Rita Baiana. Aluísio Azevedo, com cores fortes e traços firmes, retratou duras cenas do Rio de Janeiro do final do século 19, em que O Cortiço é o grande personagem do seu romance e uma metáfora da sociedade brasileira daquela época. Em O Mulato, causou escândalo por falar do racismo.
Vinícius de Moraes, “Capitão do Mato, poeta e diplomata, o branco mais preto do Brasil, na linha direta de Xangô” cantou e declamou a africanidade presente em suas veias e nas veias brasileiras. Saravá!
Brasil, “esquentai vossos pandeiros, iluminai os terreiros, que nós queremos sambar” assim pediu Assis Valente; E Paulinho da Viola tão bem nos informou em sua Dança da Solidão o que seu pai sempre lhe dizia. como se o quisesse alertar:"meu filho, tome cuidado! Quando eu penso no futuro, não esqueço meu passado.”
Di Cavalcanti introduziu a figura da mulata em suas pinturas e resgatou o espírito do movimento naturalista, mostrando a vida como ela é.
Não é possivel relatar aqui todas as manifestações artísticas que fazem referências às origens deste país, tão atreladas aos costumes e à cultura da gente africana. Porém, os fatos estão presentes em todos os aspectos da vida brasileira e, não é por acaso, que vemos a africanidade em cultos religiosos, na literatura , nas música, nas artes visuais, enfim, na pele das pessoas que tão lindamente enfeitam o cenário desta terra.
Lima Barreto e Gilberto Freyre estavam absolutamente corretos, sendo que o segundo deu forma aos anseios do primeiro. Eles e os outros, acima referidos, foram as vozes da dissidência mostrando o valor dos ancestrais africanos que aqui pisaram, mostrando no Brasil uma África em diáspora e recriação.
Hoje, novos poetas erguem versos contemplados pela beleza e pela força daqueles que representaram “o universo de humilhados e ofendidos de Dostoiésvski”.
Tânia Meneses, com o seu poema Africanidade, renova o respeito pela cultura aqui enraizada.
Dalva Molina Mansano
REFERÊNCIAS
LEITE, Fábio. Valores civilizatórios em sociedades negro-africanas.
Livro Vivo – volumes 3 e 7 – Ed. Abril. Literatura – Conhecimento Prático – Nº 40, páginas 55/59. Escala Educacional.
SANTOS JR, Renato Nogueira dos .Afrocentricidade e Educação: os princípios gerais para um currículo afrocentrado.


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