Tal semelhança fica patente após a leitura desses autores e corrobora-se no leitor a difusão constante de que as artes são reflexos do período histórico pelo qual passa a sociedade. Assim, os percalços e transtornos de um povo refletem-se paralelamente em todos os segmentos artísticos, especialmente na literatura.
Gógol, Tolstói e Andreiev observaram o povo russo do final do século XIX e começo do século XX e o retrataram com especial realidade, analisando tipos humanos ridículos (às vezes) e suas apreensões. Emitiram críticas e sátiras à burocracia existente em sua terra naquela época e deixaram obras imortalizadas que exerceram grande influência na literatura russa, introduzindo nela o Realismo, numa época em que os padrões românticos ainda prevaleciam na Europa.
Em 1836, já residindo em São Petersburgo, o escritor que fez “um retrato absurdo de um mundo absurdo” inicia um ciclo de contos fantásticos, cinco no total: O diário de um louco, A Avenida Névski, o Nariz, o Retrato e o Capote. Todos tangenciando um humor negro, em que ele mostrava a tendência de juntar-se à população esmagada pela autocracia do czar Nicolau I e criticar a monarquia russa. Após a leitura de O capote, entende-se a razão pela qual Gógol foi apontado como realista que deformava a realidade, pois a genialidade dele estava, exatamente, na capacidade de deformação. Reforçava traços reais de personagens, deformando-os e ampliando-os. Técnica essa que hoje é chamada de amplificação.
A literatura universal teve em Gógol não um escritor que retratou uma época, mas um escritor que a caricaturou. Em O capote, fez uma narrativa crítica genial à burocracia estatal. Gravitou habilmente entre o trágico e o ridículo, deixando o leitor indeciso, sem saber se ri ou se lastima diante do dilema de Akaki Acaquievitch, personagem principal da obra, quando seu mundo desabou ao receber a assombrosa notícia de que o alfaiate não poderia remendar, mais uma vez, o seu maltrapilho capote de trabalho. “De tanto pensar, Akaki Acaquievitch resolveu reduzir as despesas ao menos ao longo de um ano [...] Desde então ele não tomou mais chá à noite e não acendeu mais vela, levando seu trabalho para ser feito no quarto da proprietária. Na rua passou a andar na ponta dos pés para preservar as solas dos sapatos.” Em Tarass Bulba, observam-se as características de uma grande narrativa romântica, épica, em que é possível apontar uma epopéia dentro de uma novela. Poder-se-ia dizer, uma literatura ao estilo de Walter Scott. Nesse momento era um escritor do romantismo, todavia, já beirando o as características típicas do realismo russo.
Levou sua poesia aos palcos e fez comédia. Disse a um amigo: “Vamos rir, rir até não poder mais, viva a comédia!” Então, escreveu O inspetor Geral, peça cujo tema central era denunciar a corrupção nos órgãos públicos. Na epígrafe da obra, ele anunciava “Não culpes o espelho que tem a cara torta”, já indicando ao leitor que ali surgiriam mais deformações e caricaturas sociais. Almas Mortas é um retrato da servidão feudal na Rússia da época e a obra o consolidou como um artista sem paralelo na literatura russa. A realidade, ali colocada de forma tão forte e deprimente, deixou até mesmo seu autor perturbado, fato este que o fez mudar os rumos da narrativa, tentando abrandá-la. Assim, deixou-a um pouco mais otimista e chamou a primeira parte de Inferno, a segunda seria Purgatório e a terceira, Paraíso. Essa alteração nos planos narrativos mexeu com sua sensibilidade de poeta e com seus dogmas morais, isso o levou ao suicídio, após a morte de Alexander Puchkin, que foi o escritor que mais o incentivou, influenciou e que lhe sugeriu o tema a ser tratado em Almas Mortas.
Nicolai Vasilievitch Gógol, Leon Nikolaievitch Tolstói e Leonid Nicolaievitch Andreiev tiveram fatos pontuais parecidos em suas histórias de vida e em sua literatura. As características comuns aos três conferem a eles certa identidade. Tal fato pode ser observado ao analisarmos que Tolstói e Gógol militaram em tempos de guerras e isso nitidamente aparece em suas produções literárias.
Para exemplo, Gógol escreveu um poema épico em prosa, cuja ação se passa no século XVI, quando os cossacos lutavam contra os poloneses e os turcos. Tolstói foi servir num regimento de linha no Cáucaso, fato que o influenciou na criação do romance “Os cossacos”. Participou da Guerra da Criméia e a descreveu em “Narrativas de Sebastopol”. Andreiev em sua obra Riso Vermelho mostra indignação frente à guerra russo-japonesa, de 1904. Descreve o horror bélico e o “riso vermelho dos demônios e dos deuses”. “Vastas e marulhentas correm as águas do Dniester, as profundezas alternando com os bancos de areia; braços e desvios escondem-se entre os juncos e salgueiros marginais, as grandes e pequenas aves de rapina. O grito estrídulo do cisne selvagem estruge no ar, por cima do lençol de água esplendoroso, sulcado em todos os sentidos. [...]” (Tarass Bulba – Gógol)
Gógol herdou do pai o temperamento expansivo e a inclinação literária com forte capacidade de apreender os tipos humanos. Da mãe teve o espírito religioso que o conduziu ao misticismo doentio dos seus últimos anos de vida. As preocupações religiosas desatinaram seu espírito, a ponto de levá-lo à queima de manuscritos inéditos.
Tolstói ficou órfão precocemente, mas também teve a herança religiosa que se transformou em crise íntima e o levou a abandonar a literatura e a dedicar-se exclusivamente ao apostolado místico. Pregava o anarquismo cristão relacionado com as teorias da não violência de Ghandi. Esse apostolado provocou desentendimentos com a esposa, os quais promoveram o seu abandono do lar, para morrer dias depois, sozinho, numa estação. “... e todos os guerrilheiros, como o caçador em redor da fera morta, rodearam o corpo de Khadji Murat [...] Os rouxinóis, que haviam silenciado com o espocar dos fuzis, puseram-se de novo a trinar _ a princípio um só, bem perto, a seguir, os outros, à distância.” (Khadji Murat –Tolstói) Tal qual Gógol, foi um romancista que descreveu a verdade dos tipos humanos com suas expressões e caracteres reais. Igualmente, condenou a arte, todavia a realizou com brilho literário. Conforme Gógol o fez em seu “Tarass Bulba”, Tolstói escreveu um poema épico, que era um episódio das guerras do Cáucaso, publicado postumamente em “O diabo branco”, como testemunha das lutas.
Andreiev era de família paupérrima a quem faltava, inclusive, alimentação diária. Tal pobreza levou-o à tentativa de suicídio. Sua origem marcou-lhe o comportamento literário, e foi considerado o mais tétrico e sombrio dos novelistas russos. Procurou imprimir em seus contos e novelas os conteúdos realistas, entretanto seu temperamento mórbido provocava-lhe a capacidade criadora e impelia-o ao plano da imaginação. Isso o diferia da realidade comum, mostrando a vida observada sob aspectos grotescos e monstruosos, inclusive com tendências místicas. Transitando entre o Simbolismo e o Realismo, tratou entre outros temas, do aspecto sexual de personagens. Paradoxalmente, escreveu também comédias, onde demonstrava o cinismo, o egoísmo, a crueldade e a frieza dos seres humanos. Expôs ideias revolucionárias e rejeitou o regime soviético implantado na Rússia em 1917. Logo após a implantação do novo regime, exilou-se na Finlândia e, praticamente esquecido, faleceu em 1919. “A neve era primaveril, suave e perfumada. Primaveril o ar seco e forte que soprava. A galocha perdida de Sergei punha uma mancha negra da brancura da estrada. Assim saudavam os homens o nascer do sol.” (Os sete enforcados- Andreiev)
Tolstói também mostrou sua posição pacifista/anarquista e recusou toda forma de governo e poder. Grande pensador que era, destacou-se como autor realista. Escreveu Anna Karenina, onde abordou o adultério e o ambiente aristocrático de Petersburgo em que explorou análises psicológicas de personagens. Na narrativa fez apologia à serenidade e às doçuras da vida rural. É considerada como uma das mais importantes obras do Realismo universal.
Evidencia-se, então, o fato de que os três autores comentados são considerados fenômenos marcantes da cultura e da literatura russas. Apropriaram-se da psicologia nacional com seus graves problemas sociais e de corrupções políticas e econômicas. São autores que aliaram suas experiências de tempos bélicos às origens familiares e, com estilo inovador, dentro do realismo fantástico, ofertaram a leitores de todo o mundo o conteúdo profundo das vicissitudes sociais e humanas de suas obras literárias.
Há fatos comuns em suas vidas particulares, cuja veracidade é comprovada em suas biografias. Os reflexos dessas coincidências repercutiram em seus escritos e propiciaram grandes produções com estilos e temas similares, entretanto com a característica própria de cada um.
REFERÊNCIAS:
Jackson, W. M. Inc. Grandes Romances Universais, Volume 7, São Paulo. Gráfica e Ed. Brasileira.
BRETON, Publicação do grupo por uma Arte Revolucionária e Independente, n°. 1, Agosto de 2011, páginas 8 e 20. http://www.lpm.com.br/site/default.asp?TroncoID=805134&SecaoID=948848&SubsecaoID=0&Template=../livros/layout_autor.asp&AutorID=607090 http://educacao.uol.com.br/biografias/leon-tolstoi.jhtm http://pt.wikipedia.org/wiki/Leonid_Andreiev http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/LeoNiAnd.html http://www.infopedia.pt/$leonid-andreiev http://russiashow.blogspot.com.br/2011/03/riso-vermelho-e-uma-visao-fantastica-e.html http://russiashow.blogspot.com.br/search/label/LEONID%20ANDREIEV
Dalva Molina Mansano
30.04.2012 00:37
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Que bom você ter me visitado! Deixe-me o encanto de suas palavras. Obrigada.