Procuramos por ti cá entre nós,
a necessidade era grande.
Incursões, buscas no universo
por respostas sábias das ciências.
Deus preparou tão suave solução
para aquele sonhado projeto.
Deu-nos esta aurora de teus olhos
Onde renasce a alegria diária.
Dalva Molina Mansano
terça-feira, 31 de julho de 2012
NOITE DOS ERRANTES
Venta a voz de ontem lá fora.
Brisa alvoroçada vai
Fria, em frenéticas notas.
Varrendo escassos restos
Que voltaram rejeitados
Pela noite dos errantes.
Vagueia lua lânguida, só
Vestal de prata vestida,
Vindima para duas taças.
Vigilante dos destinos,
Enobrece nesta noite
Vínculos que se enlaçam.
Vento e lua, óh, lua e vento
Vazem claro na vidraça,
Violem, teçam tal vigor.
Dalva Molina Mansano
Brisa alvoroçada vai
Fria, em frenéticas notas.
Varrendo escassos restos
Que voltaram rejeitados
Pela noite dos errantes.
Vagueia lua lânguida, só
Vestal de prata vestida,
Vindima para duas taças.
Vigilante dos destinos,
Enobrece nesta noite
Vínculos que se enlaçam.
Vento e lua, óh, lua e vento
Vazem claro na vidraça,
Violem, teçam tal vigor.
Dalva Molina Mansano
RUÍDO NO CORREDOR
Um ruído no corredor
atravessa o meu silêncio,
trazendo do vento as mãos.
Sinto-as sobre os ombros
transmitindo o ar respirado
do ontem a me visitar.
Um estalo encerra a volta
ao meu pátio ajardinado,
magro feito bater de porta.
Voam as lembranças embora,
ruflam explicações vãs
de que o ontem aqui não cabe.
Dalva Molina Mansano
atravessa o meu silêncio,
trazendo do vento as mãos.
Sinto-as sobre os ombros
transmitindo o ar respirado
do ontem a me visitar.
Um estalo encerra a volta
ao meu pátio ajardinado,
magro feito bater de porta.
Voam as lembranças embora,
ruflam explicações vãs
de que o ontem aqui não cabe.
Dalva Molina Mansano
domingo, 29 de julho de 2012
A MÃE, A FILHA E E.E.CUMMINGS
Lendo os jornais diários de minha cidade, detive os olhos em uma página, onde um texto chamou-me a atenção. Era homenagem de uma filha à mãe, ex-professora, que acabara de falecer. As palavras, carregadas de dor, emocionavam.
Descrevendo a mãe, a filha destacou o amor que aquela senhora teve pelo esposo, ao qual sempre declamava um poema, amante que era, também, da poesia. Após a morte do marido, uma cópia do poema andava com ela, na bolsa, junto à foto dele.
Expôs o referido poema, dizendo que a mãe era leitora assídua de Cummings.
“Carrego seu coração comigo
Eu o carrego no meu coração
Nunca estou sem ele
Onde eu for você vai... “
(...)
Pus-me a pensar na suscetível grandeza da linguagem poética, a qual penetra a alma humana com tal grandiloquência, que se aninha na vida das pessoas e fica.
A beleza da poesia está em ela simplesmente ser. Desponta em meio a fatos e objetos, do nada transmutado em tudo, entre círculos coloridos, na fisgada de uma emoção qualquer.
Em meio a essas divagações, vejo que Cummings, embora tivesse sido tão criticado em seu fazer poético, até hoje penetra com sua poesia nos sentimentos de quem o lê. Significa, portanto, que a emoção é que importa ao leitor. E ponto.
“que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem estão velhos”
(...)
Chegam tendências e se vão como o movimento do mar. Algumas ondas são passageiras, outras duradouras, algumas até fazem escola e permanecem ao longo dos anos, passando por alterações de acordo com cada época. Nada em literatura é estanque ou muda de uma hora para outra. As transformações vão ocorrendo lentamente e se instalando, até que surja outra corrente literária.
Nada de novo até aqui, mas há determinados autores que fazem com que uma análise mais aprofundada seja necessária sobre seus escritos. É o caso de e.e. cummings, que assim mesmo assinava sua obra, fazia questão das letras minúsculas.
Tudo que é novo assusta e isto também não é novidade. Os escritores que surgiram com propostas diferentes precisaram suportar críticas e ignorá-las para que suas idéias
literárias fossem aceitas e reconhecidas. É o caso de Edward Estlin Cummings que exerceu grande influência sobre os poetas concretistas brasileiros e foi atuante na literatura americana como um dos grandes inovadores da poesia no século XX.
Descrevendo a mãe, a filha destacou o amor que aquela senhora teve pelo esposo, ao qual sempre declamava um poema, amante que era, também, da poesia. Após a morte do marido, uma cópia do poema andava com ela, na bolsa, junto à foto dele.
Expôs o referido poema, dizendo que a mãe era leitora assídua de Cummings.
“Carrego seu coração comigo
Eu o carrego no meu coração
Nunca estou sem ele
Onde eu for você vai... “
(...)
Pus-me a pensar na suscetível grandeza da linguagem poética, a qual penetra a alma humana com tal grandiloquência, que se aninha na vida das pessoas e fica.
A beleza da poesia está em ela simplesmente ser. Desponta em meio a fatos e objetos, do nada transmutado em tudo, entre círculos coloridos, na fisgada de uma emoção qualquer.
Em meio a essas divagações, vejo que Cummings, embora tivesse sido tão criticado em seu fazer poético, até hoje penetra com sua poesia nos sentimentos de quem o lê. Significa, portanto, que a emoção é que importa ao leitor. E ponto.
“que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem estão velhos”
(...)
Chegam tendências e se vão como o movimento do mar. Algumas ondas são passageiras, outras duradouras, algumas até fazem escola e permanecem ao longo dos anos, passando por alterações de acordo com cada época. Nada em literatura é estanque ou muda de uma hora para outra. As transformações vão ocorrendo lentamente e se instalando, até que surja outra corrente literária.
Nada de novo até aqui, mas há determinados autores que fazem com que uma análise mais aprofundada seja necessária sobre seus escritos. É o caso de e.e. cummings, que assim mesmo assinava sua obra, fazia questão das letras minúsculas.
Tudo que é novo assusta e isto também não é novidade. Os escritores que surgiram com propostas diferentes precisaram suportar críticas e ignorá-las para que suas idéias
literárias fossem aceitas e reconhecidas. É o caso de Edward Estlin Cummings que exerceu grande influência sobre os poetas concretistas brasileiros e foi atuante na literatura americana como um dos grandes inovadores da poesia no século XX.
“que o meu pensamento caminhe pelo faminto
E destemido e sedento e servil
E mesmo que seja domingo que eu me engane
Pois sempre que os homens têm razão não são jovens”
(...)
Ezra Pound e T.S. Eliot influenciaram o renascimento das letras norte-americanas no início daquele século e destacaram-se no movimento Modernista da poesia. A inovação já vinha desde os primeiros poemas líricos de Joyce (de influência Simbolista), mas que apresentavam características visuais e objetivas, as quais os aproximavam do imagismo de Pound. A ruptura com a literatura tradicional já se evidenciava por volta de 1925.
Dentre os poetas “novos” influenciados pelos Modernistas, Cummings era um dos mais conhecidos. Rompeu com a técnica tradicional e introduziu importantes modificações sintáticas e na formação de palavras, estilo distinto com pontuação própria, seguindo a suas regras gramaticais. Por isso, foi hostilizado pela crítica e identificado como um iconoclasta social. Foi voluntário na 1ª. Grande Guerra e preso por engano, ele que tinha inclinação pacifista. Os horrores da guerra causaram impacto na obra de Cummings e em sua visão jovem e exuberante. Ao mesmo tempo, continuou valorizando tudo que era simples, natural, individual ou único. Foi capaz de expressar serenidade em resposta às belezas do mundo natural.
“teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abre sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa”
Como Joyce, Eliot, Faulkner e Pound, e.e. cummings gradualmente ensinou o leitor a ler sua obra repleta de inovações literárias e a ele a literatura muito deve da flexibilidade hoje introduzida nos versos.
Era também dedicado às artes visuais e pintou inúmeras telas, porém foi mais reconhecido como poeta que como pintor.
Tinha ascendência literária e intelectual por parte de mãe e foi educado em ambiente cultural, todavia rebelou-se contra a atmosfera dominada pela aprendizagem de Harvard e, influenciado pelo poetas novos, começou a escrever versos livres e criou um estilo próprio.
“(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas!”
Resistiu a tudo e a todos, passou por três casamentos mal sucedidos, suportou em silêncio os risos daqueles que o criticavam.
“Não ser ninguém-a-não-ser-você-mesmo,
Num mundo que faz todo o possível, noite e dia,
Para transformá-lo em outra pessoa
Significa travar a batalha mais dura
Que um ser humano pode enfrentar;
E, essencialmente, jamais parar de lutar”
Hoje, século XXI, leio nos jornais que uma senhora usava os versos de e.e.cummings para falar de amor com seu amado.
Ocorrem-me, então, as perguntas que não querem calar. A opinião dos críticos literários seria assim tão importante? Ou a importância da poesia é o que ela transmite ao leitor? Que magia há nos versos de cummings que permanecem ainda hoje falando alto em amantes corações?
Edward Estlin Cummings, simplesmente e.e. cummings, atingiu o objetivo primordial da poesia, que é alcançar e alma do leitor e emocioná-lo. Partindo do nada transmutado em tudo, falam melhor as emoções despidas de invólucros, através de límpidas palavras. Cumprindo puramente a missão de levar a poesia a ser.
Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/E._E._Cummings
http://en.wikipedia.org/wiki/E._E._Cummings
sábado, 28 de julho de 2012
JÁ NÃO HÁ MOVIMENTO
pouco dos delitos.
A árvore tão bem cuidada
perdeu o verde,
que pisoteado no chão ficou.
Secas ramas subsistem sem vigor,
ornamentadas pela tesoura diária
em mãos dos transeuntes.
Oh, maldito instrumento,
Por que não ceifa em sangria
a mão que desgraçadamente o guia?
Já não há movimento
entre as folhas e ventos.
Apenas galhos sem rebentos.
Dalva Molina Mansano
SEMPRE-VIVAS
colaboram com elas as sempre-vivas.
Saúdam o colorido das telas,
embelezam-se e alegram o jardim.
Aos olhos restauram-se.
Foto: google
Constantes, aparecem as borboletas
e abelhas, renovando o ciclo.
quinta-feira, 26 de julho de 2012
NAS ASAS DO VENTO
O vento chamava na janela, ouvi
ciciando nas folhas da goiabeira, então
da sacada acenei a quem chamava, senti
a fragrância mista de amor e sedução.
Eram asas que o vento me trazia, acolhi
nos leques de minhas mãos o alumbramento
levada em torpor no trajeto, sucumbi
sob pétalas de flor e outono violento.
Ouvindo o vento de esperanças, entendi
que das folhas me chamava o teu caminho
Espalhei preces em doce malva, senti
O calor macio do abraço qual arminho.
quarta-feira, 25 de julho de 2012
FRIO
Nuvens embaçam,
azul cinzento.
Frio.
Raios se esgarçam,
falta o unguento.
Rio.
Pingos desabam,
começa o vento.
Fio.
terça-feira, 24 de julho de 2012
HIATO
perdido o chão de mim
Hiato quieto, sem fim
silêncio em desarranjo
deixou a alma sorrateira
o invólucro sem leme
pairou do abismo à beira
sem um corpo que a algeme
um vazio na memória
feito sono forçado
assim que cantou o Glória
partiu para outro lado
pousou quem sabe onde
essa menina arteira
pergunto e não responde
arriou toda lampeira
quinta-feira, 19 de julho de 2012
MEIGA VIVI
Meiga Vivi
Esta linda sobrinha,
que tem o sorriso de um anjo bom e iluminador.
Para ela, que tem o coração suave
como um doce refúgio e a alma límpida como a mais pura fonte.
Esta menina, em seus mínimos gestos
e valente mulher em momentos de valorosas atitudes.
Viviane delicada, como delicado é seu nome.
Uma estrela que nos oferece seu brilho
e espalma as mãos em doações de afeto, respeito e carinho.
Um sonho que se traduziu em doce realidade entre nós,
a quem hoje, porque hoje é especial dia, expresso o amor que a ela dedico.
Desde que, naquela manhã de inverno,
outro anjo bom me anunciou:
Ela nasceu e é Viviane,
a nossa meiga Vivi!
Dalva Molina Mansano
16 de julho de 2012
terça-feira, 17 de julho de 2012
IMPORTÂNCIA DA LITERATURA VIRTUAL, UM ENSAIO SOBRE A OBRA DE TÂNIA MENESES
Durante o desenvolvimento deste texto, faz-se uma sucinta apreciação relativa a aspectos do fenômeno que ocorre na literatura brasileira, nesta fase inicial do século XXI, a manifestação da chamada literatura virtual.
Esta chega ao leitor em tempo real e cresce vertiginosamente nos últimos anos, levando alguns pesquisadores e apreciadores da leitura a diversas hipóteses a respeito desse meio de difusão. Será um modismo? Estará se instaurando como um jeito novo de se fazer literatura? Há autores de real valor surgindo nesse filão? Correria a literatura o risco de ser frivolizada como aventou Mário Vargas Llosa?
A literatura tradicional mantém seu fascínio e parece ser impossível contradizer a afirmativa de Mário Vargas Llosa “as palavras gravadas no papel são as mais belas paisagens da imaginação.” Todavia, não se pode negar que a literatura artística alastra-se com inexplicável desenvoltura pela Internet, integrada por excepcional rede planetária.
Explica-se essa preferência pelo virtual, a julgar pela grande velocidade da transmissão digital, pelo baixo custo de produção e autonomia de veiculação. Por estar em pleno processo evolutivo, a ciberliteratura oferece certa dificuldade de sistematização, pela diversidade de produções estéticas elaboradas e diretamente jogadas em rede. É um processo relativamente novo que surgiu como que se desafogando das dificuldades decorrentes do modo antigo como os escritos literários eram levados a público. É possível ainda na atualidade o contato com a poesia, por exemplo, em livros, em determinados eventos, acessando um computador, ouvindo um DVD, disco flexível, Internet ou Web. Essa facilidade contrapõe-se ao que se fazia antigamente em saraus, ou quando os poetas e trovadores declamavam seus versos ao som da lira ou, em épocas mais próximas, ao som do piano.
Os poetas nunca se aquietaram e foram arrumando meios de aproximação maior com os leitores, buscando modernizar suas práticas, conforme as melhores possibilidades de comunicação transformadas em realidade no correr do tempo. Tal afirmativa já se podia autenticar em épocas remotas, pois em toda e qualquer oportunidade arrumava-se um pretexto para que os poemas fossem levados a público. Com o advento dos computadores e da Internet, hoje podemos falar da poesia feita em rede, ou seja, no espaço simbólico dos computadores, que é hipertextual e hipermediatical. Há inúmeros sites literários com as mais importantes e valorizadas obras, com downloads gratuitos de clássicos da literatura universal que servem como relevante base de leitura, todavia sem sobrepor-se ou equiparar-se à literatura tradicional, dada à importância desta.
Evidente, porém, é que a Webliteratura destaca a emergência de interseções comunicacionais que possibilitam intercâmbio entre emissores-produtores e receptores-consumidores. A Internet exclui os intermediários editoriais e o autor passa a ser autossuficiente para editar, distribuir, alterar ou atualizar suas obras sem custos adicionais.
Estudos literários têm tradicionalmente versado sobre autores clássicos, modernos, pós-modernos e contemporâneos publicados no formato tradicional de livro de papel. Por outro lado, frente às facilidades ofertadas pelos meios de comunicação da atualidade, autores surgem em rede, permanecem à baila, produzem textos que contemplam basicamente todos os gêneros, muitos demonstrando qualidade literária acima da média em suas obras, todavia sem que despertem mais incisivamente a atenção da crítica especializada. Estes e outros itens ensejam dúvidas sobre a qualidade literária de textos que surgem diariamente nos portais populares, dedicados à literatura. Todavia, não se deve subestimar o contexto em que se realiza a literatura virtual.
Trata-se da veiculação de textos em canal aberto, totalmente democrático e no qual o autor tem o privilégio de atingir leitores de todos os níveis culturais, sociais, de idade, etc. Frise-se a possibilidade de interação autor/leitor e vice-versa. Seguindo essa linha de pensamento, fácil é depreender a necessidade de estudos especializados sobre a literatura via rede.
“A coisa mais bela que o homem pode experimentar é o mistério. É esta a emoção fundamental que está na raiz de toda ciência e arte. O homem que desconhece esse encanto, incapaz de sentir admiração e estupefação... esse já está, por assim dizer, morto, e tem olhos extintos. (...)”. (Einstein)
Na literatura cotidiana dos sites, há a possibilidade de se compartilhar idéias e emoções. Desta forma, a reflexão sobre o conhecimento humano, o encanto e o mistério do Belo coexistem nessa nova forma de literatura. Portanto, que os olhos estejam abertos para o novo e que acatem as possibilidades do moderno.
Os questionamentos mais frequentes são em relação ao livro de papel, ou seja, pergunta-se se a literatura virtual irá fazer com que os livros impressos desapareçam. Ao que parece, essa preocupação tem diminuído, mesmo no ambiente da mídia, pois quase todos os maiores jornais do planeta já podem ser lidos em formato digital. Queiram ou não, a Internet é um suporte eletrônico de leitura que surgiu nos últimos tempos e que, embora tenha sofrido resistência dos representantes culturais da sociedade contemporânea, vem se firmando como canal aberto à difusão da arte.
É fato que livros publicados exclusivamente na Web têm sido baixados em expressiva quantidade, enquanto disponíveis gratuitamente. Essa alta procura dificilmente é alcançada pelas editoras, mesmo com livros que atingem sucesso de vendagem. Não há como afirmar que a falência do livro de papel seja decretada em virtude da novidade em rede, mas é certo que esta chegou para ficar. A literatura via Web e a literatura impressa em papel, certamente, já estão caminhando paralelamente diante do interesse do público leitor.
Por longo tempo, a poesia ficou relegada a segundo plano, se comparada ao interesse que se demonstrava pela escrita em prosa. Hoje, pela facilidade de acesso à literatura em rede, seja em prosa ou em verso, percebe-se que aumentou o interesse por textos poéticos. Na esteira de um aumento considerável do número de leituras pela Internet, muitos até se aventuram a mostrar ao mundo o que escrevem e que, há algum tempo jamais ousariam sequer sonhar.
A democratização se estende por toda parte e abre imensas e largas portas para a inclusão social. Entre esses que publicam textos, muitos ficam pelo caminho quanto a se tornarem verdadeiramente reconhecidos como escritores. Entretanto, um ponto positivo é que têm o gosto despertado para a leitura e também para a escrita.
O objetivo desta análise é observar a importância da literatura virtual enquanto elemento democratizador da leitura e da escrita. Com o propósito de exemplificar o que acontece no mundo virtual quanto à literatura, enfoca-se neste ensaio o exemplo da professora e poetisa Tânia da Conceição Meneses Silva, sergipana, nascida em Aracaju. A escritora possui duas escrivaninhas no Site Recanto das Letras, com 1693 textos publicados e 120.517 leituras na escrivaninha Tânia Meneses – 1; 1105 textos com 32.235 leituras na escrivaninha Tânia Meneses, até a presente data (09/01/2012). Números estes que perfazem um total de 2.798 textos e 152.752 leituras, aproximadamente, nas duas escrivaninhas.
Essa estatística não deve ser menosprezada, pois representa uma fortuna crítica angariada pela autora, cujos comentários partem de leitores dos mais variados níveis culturais e sociais e de escritores filiados ou não ao portal. Vale ressaltar que a quantidade de postagem de textos e de leituras aumenta diariamente, uma vez que este tipo de contato entre autora e leitores ocorre diuturnamente.
Seguem os poemas que abrem cada escrivaninha acima referidas, sendo que O olhar do gato, embora abra a escrivaninha 1, cronologicamente, não é o primeiro da escritora. Foi escrito em 05.03.06 e publicado em 16.09.07.
OLHAR DO GATO
o mundo é teu mas o horizonte é meu
sopés
sapés
pássaros em revoada
à tardinha agasalhando-se
o mundo é teu
mas a lua é minha o sol
o olho do dia
a boca da noite
a alvorada
o vento
as ondas espumantes
o oceano
o espírito da poesia
a força da oração
os quebra-pedras
os pega-pintos nas calçadas
as calçadas são boas
democráticas
o aparelho de som e o CD são teus
mas o som da música e o Amor são meus
a nostalgia é minha
a saudade é tua
o gato é teu
mas o olhar do gato é meu
o poder é vosso
este poema é nosso
Refere-se ela à sua Escrivaninha inicial no site Recanto das Letras como se fosse uma velha casa, onde sonhos e desejos estão cravados nas paredes e passos soam nos degraus de entrada. Nela há amores, alegrias, festas de aniversários e sons da música de seus poemas. Na velha casa, ainda há a porta aberta e as janelas pedindo novos ares a balançar as cortinas. Há os olhos que perscrutaram, há o som do piano antigo e a concertina a levar folia em frente a ela.
Visitei ontem a velha casa
Visitei ontem a velha casa
De sonhos, ilusões e encantamento
Visitei a velha casa onde restou guardado
Algum tormento Avistei ali as pétalas secas cheirando a fim
E vi a quietude das ruas ensombradas
Divisei ângulos e da paisagem alguns retângulos
Algo que vivi e agora dormita num antigo armário estocado
Naquele local há beijos não beijados
Sôfregos abraços dependurados nas janelas
Cravos tristes e desfeitos, preces de ateus
Cenas de um casamento
Um amor perdido no tempo
Lírios murchos
Um adeus
O texto abaixo abre a segunda escrivaninha e foi postado em 31.10.10. É um poema que apresenta forte lirismo e certo grau de tensão representado pela combinação de palavras e metáforas que caracterizam a plurissignificação de seus versos.
Em ti meus olhos pensam
Em ti meus olhos pensam
Quando olham assim longamente
Suspiram meus olhos de saudades
Murmura meu peito de ardor
Assim como se fosse o mar
No mais intenso fragor
Voam aves em debandada
Respiro o ar do pensamento dos meus olhos
Tristemente
Buscando dar vazão à sua inspiração, a autora utiliza-se das ferramentas da era digital e faz jorrar um manancial riquíssimo que parece brotar de sua pele como se fosse um lençol freático de transparente lâmina poética. Lança mão de recursos de reconstrução da linguagem, para enfatizar o conteúdo. Elabora metáforas, sem recorrer, entretanto, ao abstrato que possa comprometer totalmente a compreensão do texto e persegue o concreto, demonstrando em sua arte a técnica de comunicar nas entrelinhas. Essa reconstrução acontece não só quanto à linguagem, mas também ao modo de posicionamento da escritora perante a vida, pois quem produz arte não existe isoladamente, ou seja, à parte do mundo. A vivência e a leitura do entorno refletem-se claramente na literatura. Nesse refazer poético, há a união de valores pessoais, sociais e culturais de sua época, fortalecidos por ideologias, pela forma de ver, de analisar e confrontar-se com a sociedade e com o universo.
A proposta poética defende a condição humana e não foge do desafio de contrapor-se e ultrapassar algumas vertentes. Seria correto afirmar que ocorre na obra em questão um discurso em que cada evento circunstancial de movimentação cotidiana, na sociedade e na história contemporânea, funciona como matéria prima para inspiração e contato com o leitor.
Fazem mal
Quem sabe um tema neutro
O recado do coronel da marinha iraniana aos navegantes dos Estados Unidos
Quem sabe desse jeito
Dê algum jeito
De fundear a poesia
Lá bem no meio do mar
Então morrerá afogada
E coisa alguma sobrará pra se dizer
Pra amor fazer
Pra guerra cessar
(...)
O lirismo recorrente em muitos de seus poemas, com características próximas ao Simbolismo, revela uma poesia confidencial que se completa quando o leitor capta a mensagem contida nos versos. A obtenção de tal resultado sugere a seguinte afirmativa de Goethe “estilo não é (...) nem o particular puro, nem o universal, mas o particular em instância de universalização e o universal que se despe para remeter a uma liberdade singular.”
O volume da obra, sobre a qual aqui se discorre, apresenta variedade de temas, gêneros e tipologia textual. Há como que um sobrevoo feito sob um olhar investigativo da realidade contemporânea.
Para Luiz Carlos Travaglia, o gênero textual exerce uma função social específica, função esta pressentida e vivenciada pelos usuários, o que significa que o texto atrai o leitor como se fosse algo relacionado a ele ou muito próximo, com direito a interação, de acordo com a função social estabelecida e contextualizada no momento da leitura, como se a poeta falasse pelo leitor. Travaglia aponta, ainda, a questão da espécie textual, que tem a ver com os aspectos formais de estrutura e a superfície lingüística e/ou de conteúdo.
O poema a seguir, com tema inspirado na música do mesmo título, de Giuseppe Verdi, sugere ao leitor a movimentação musical que interfere no fazer poético.
"LA DONA È MOBILE"
... Al vento Voam os versos
Em todas as direções
Al vento Sopro e alento
Voam os versos Suaves movimentos
Diferentes notas
Soam sonatas
Al vento
AL vento
Voam
Sorrisos
Lamentos
Al vento
Va la donna
Al vento
Há, inclusive, entremeada à obra, um cotidiano poético, por vezes comum, banal, corriqueiro, sugerindo a ideia de uma poesia prosaica. Entretanto, aprofundando a leitura e estendendo-a ao todo da obra, percebe-se que existe um substrato de melancolia em contraponto com a alegria de viver, há a metapoesia, o humor e a cultura popular. Tudo se mescla na temática desenvolvida pela escritora, cuja poesia vai da mulher lasciva, em alguns momentos a espiritualizada, em outros. Em determinadas composições, é visível a busca pela palavra exata fundindo-se com a realidade da poesia anti-lírica e dessacralizada, em clara engenharia de construção poética, bem como ainda é perceptível na obra aqui visitada, um conjunto de nuanças de poesia de temática social e política, como em:
SOBERBA IGNORÂNCIA
Ao meu semelhante perdido
Na interminável noite
Das drogas
Estendo a mão
Isto eu o faria
Talvez para mostrar-lhe
Do alto da minha montanha
De soberba ignorância
A parcela humana privilegiada
Para a qual é sempre dia
A autora comentada geralmente abre mão da pontuação ortográfica, sem, contudo, prejudicar a clara compreensão de seus versos, tampouco o ritmo. Não faz questão de seguir teorias nem prega regras a serem obedecidas, como se quisesse dizer, a exemplo de Drummond, que a poesia está no fazer, não no discorrer. A característica de liberdade evidente na obra de Tânia Meneses explicita-se como uma crítica às regras rígidas exercidas sobre a linguagem.
Em A Gramática Normativa, publicado em 13.10.10, diz textualmente, não odiar a gramática nem morrer de amores por ela. “Quem muda a mesmice é o líder, seja ele um guerrilheiro ou intelectual das letras. É o caso de Saramago e de tantos outros. Eu não gostaria apenas de passar, gostaria de voar, mas ainda me encontro muito atada às concepções adquiridas nas aulas das inúmeras disciplinas do Curso de Letras. Disciplinas Nazilinguísticas que nos fizeram acreditar num purismo inexistente.” Segundo a poetisa, “O verso é traiçoeiro, a rima é dissimulada, a estrofe é nada, a forma menos ainda.”
Em Omissa, ficam estabelecidas a liberdade de criação e a ausência de amarras na arte literária da autora, bem como a deliberada rebeldia presente em quase toda a sua produção. Este poema também emite um conceito que envolve moral e ética, um posicionamento da poetisa quanto à vida e à liberdade de pensamento.
OMISSA
deliberadamente omissa
não rezo em toda cartilha
nem sigo de outros o credo
muito menos frequento suspeita missa
Na tentativa de definir poesia, a escritora elabora reflexões diversas, de várias formas e perspectivas, sob óticas diferentes, identificando-a, por vezes, como algo que chega a ser metafísico, de tão impalpável. Algumas definições são aqui expostas em frases, estrofes e poemas:
“A poesia é a irrealidade, o sublime, o inalcançável e o inalcançado”;
“A poesia é sarcástica, masoquista e sádica. É princesa voluntariosa, caprichosa e tirana”;
“Não há adjetivos que satisfaçam a poesia, tão exigente é”;
“A poesia é uma sanguessuga, é o cupim da alma, o bicho que come as carnes dos cadáveres, assim como levou toda a essência de Augusto dos Anjos.”
Só a poesia diz quando é noite
Só a poesia se pode dar ao luxo
De fazer estripulia
De caminhar na corda bamba
De deslizar dos dedos as extremidades
No fio da navalha
De cremar-se na fornalha
De enfrentar barricadas
De rasgar as roupas
E ferir a própria carne
(...)
Soberania
Aquele que tem a poesia é rei destituído
Soberano de reino algum vagando ao léu
Quem tem a poesia
Consegue duplamente ser
Vítima e réu
Brinde à poesia
A poesia me permite entranhar um nome ao vento das praias
E perfura também as paredes grossas dos castelos
(...)
A poesia mergulha na minha taça de vinho
VUELO
a poesia é passarinho pergunte a
Quintana
a poesia emana das penas da ave
poesia cigana
O crítico Hans Robert Jauss procurou privilegiar o leitor no ato interpretativo do texto literário e disse que o diálogo entre a obra e o público oferece uma construção de continuidade, onde deixa de existir oposição entre aspectos históricos e aspectos estéticos, ocorrendo, desta forma, uma ligação entre a literatura do passado e a experiência literária de hoje, da qual não se exclui a virtual (grifo nosso).
Granger situa o estilo como o lastro do individual na atividade científica, resíduo não passivo de estruturas e diz que o sujeito não é uma subjetividade pura (1968, p.21).
Em linha paralela, o pensamento de Possenti se volta para a inserção da linguagem no real, o que significa dizer que os textos escritos são um produto sempre inacabado, de um processo que continua enquanto existir alguém que trabalhe com a historicidade dele. São as marcas recuperáveis e interpretáveis, com significação identificável. (1988, p.165).
Sartre tratou da relação entre autor e leitor dizendo que a leitura coloca ao mesmo tempo a essencialidade do sujeito e do objeto: “O objeto é essencial porque rigorosamente transcendente, porque impõe as suas estruturas próprias e porque se deve esperá-lo e observá-lo; mas o sujeito também é essencial porque é necessário, não só para desvendar o objeto (isto é, para fazer com que haja um objeto), mas também para que esse objeto seja em termos absolutos (isto é, para produzi-lo). Em suma, o leitor tem consciência de desvendar e ao mesmo tempo de criar; de desvendar criando, de criar pelo desvendamento. Não se deve achar, com efeito, que a leitura seja uma operação mecânica, que o leitor seja impressionado pelos signos como a placa fotográfica pela luz.” (SARTRE, 2006, p.37).
Vygotsky, pensador russo, entre outros temas, desenvolveu estudos sobre a origem cultural das funções psíquicas superiores do ser humano. Dizia que este se constitui como resultado da interação social. Para ele, é como se a cultura moldasse o funcionamento psicológico da pessoa. Não aceita ele a hipótese de idéias e funções muito fixas e imutáveis, cita o cérebro como algo aberto, como se fosse um sistema de grande plasticidade, com funcionamento moldado ao longo do desenvolvimento individual. Ou seja, as funções psicológicas nascem das relações do indivíduo e seu contexto cultural e social.
Em assim sendo, compreende-se a fácil identificação dos leitores com os textos de cunho artístico com que se deparam em portais de literatura, desde que esses textos correspondam às suas necessidades e sentimentos.
Não obstante o ir e vir do moderno ao clássico, do clássico ao contemporâneo, a poetisa em estudo neste ensaio manifesta-se num constante movimento de recriação e reinterpretação de informações.
Bakhtin afirmou que “o homem não nasce só como um organismo biológico abstrato, precisando também de um nascimento social”. Dizia ainda que a produção das ideias, do pensamento dos textos tem sempre um caráter coletivo, social. Assim, é com as palavras do outro que o nosso próprio pensamento é tecido. A afirmativa de Bakhtin converge para as conclusões de Vygotsky, Jauss, Granger, Sartre e Possenti no sentido de que os textos escritos unem-se às intenções do leitor e seguem trajetórias diversas, além das pretendidas pelo autor. Ainda conforme Bakhtin, “um texto vive unicamente se está em contato com outro texto.”
Nas idas e vindas literárias da obra aqui tangenciada, entre o passado e o presente, a arte põe-se em contato com poetas de gerações e correntes literárias anteriores, quando a poeta questiona:
Fernando Pessoa,
você me perdoa?
É possível crer e descrer simultaneamente
Pois em cada ser humano
Habita muita gente
Ou quando, inspirada em A flor do sonho, de Florbela Espanca, expõe
Manchas de carmim
Ensina-me, Florbela,
Diga-me como penam assim
Teus versos de cetim
Neles deposito flores de sonho
Cravos crivados na lapela
Manchas de carmim
Ousando um pouco mais, a poeta responde ao Onde estás?, do baiano Castro Alves:
AQUI ESTOU
Ouço o vento... está zumbindo
Esfria-me a ventania,
Meu sorriso perde a graça,
No meio da noite fria.
Minh’alma é muda, lassa
Por amor tudo se faz:
“Digo ao vento, peito aberto,
Aqui’stou, no lugar certo”
Mas, o vento volta esperto,
Não leva o que se responde: “
Aqui estou, onde estás? ...
(...)
Os textos literários podem ser autônomos, isto é, podem surgir pura e simplesmente da inspiração imanente de um autor, porém também pode acontecer de um texto alimentar-se de outros, literários ou não, pois fazem uso da mesma matéria prima, ou seja, da palavra, cuja essência é o fenômeno social da interação.
Há poemas da autoria de Tânia onde se restabelece o contato entre autores, não à semelhança de uma busca angustiada do passado ou restauração dele, mas para que haja um reaparecimento desse passado no ato da leitura. No “encontro” que faz com outros autores, a obra que aqui se comenta demonstra a formação clássica da poetisa, mas que se coloca em contato direto com o leitor deste século.
Assim, dialoga com Gregório de Matos Guerra em
IMPLÍCITA
Todo o dia ela passava
Com os cotovelos no batedor
Da janela
E o par de brincos em ouro mostrava
Pois que nenhum
Olhava pra ela
Veio um, enfim, e disse assim
Por que suspiras, ó orelhuda
(...)
Com Baudelaire, em EMBRIAGUÊS (inspirado em Embriaguem-se, de Charles Baudelaire
Somente de poesia
Quero embriagar-me
Beber versos leves ou desengonçados
Poesia na natureza e na beleza
Dos telhados
(...)
E ainda surge Conversando com Cassiano Ricardo:
Pouco importa
A lua morta Batendo torta
À minha porta
Tânia dialoga com Clarice Lispector, concatenando idéias e interpondo questionamentos, como se ambas estivessem em tempo real e frente a frente, num momento de confabulações. Em “Um sopro de vida”, Clarice diz: “Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou sabe. Perigo de mexer no que está oculto (...). Ao que Tânia interpela: “Eu não temo escrever, Clarice. Teria você esquecido de dizer que ler é mais perigoso ainda? Ah, Clarice de todos nós, ler é amedrontador. Ler pode reviver momentos e nos levar perigosamente ao passado. Por isto rasguei as páginas. Acontece, Clarice, que descobri que as cartas estão escritas em mim. Descobri quão nítidas estão, e impiedosas.” (Tânia Meneses - Tenho medo de escrever. É tão perigoso- Clarice Lispector).
Impossível falar de literatura sem mencionar a linguagem, esta que nasce das emoções.
Citando Rousseau em seu Ensaio sobre a origem das línguas, “(...) as primeiras línguas foram cantantes e apaixonadas antes de serem simples e metódicas.”
Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa, assim se referiu às palavras: “Gosto de dizer. Direi melhor: Gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie (...) transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais (...)”.
A obra de Tânia Meneses não passa ao largo da importância da linguagem e das palavras e da constante declaração de amor pelo código linguístico, como se pode verificar no poema abaixo,
ENTREPALAVRAS
Palavras são inodoras
Bichos mortos, palha
É nas frestas entre elas
Que habita para sempre
A origem do pensamento
A eternidade
E o fugaz momento
Invariavelmente, a poeta sergipana tem cantado a palavra:
PALAVRAS
A palavra vive
Em desaforo se abre
Em beijos estala
É busto arfando
Pernas se abrindo
Coração pulsando
Pulula a palavra
(...)
Sendo a palavra o elo que fortalece a linguagem e esta a ponte entre o leitor e a poeta, confirma-se, então, que a literatura é um processo contínuo que acompanha o desenvolvimento da sociedade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este ensaio sobre literatura veiculada na WEB logrou apresentar um esboço sobre a reflexão que percebe na literatura uma arte que continua fincando raízes e tem uma história de modernização e rompimentos de barreiras. A escritora focalizada mobiliza sua experiência através da linguagem de seu tempo, cria empatia entre a produção e o público e promove uma arte literária que absorve os recursos da nova mídia, tanto nos processos de criação como de difusão.
Lygia Fagundes Telles disse crer que a função do escritor “é a de ser testemunha de seu tempo e da sua sociedade. Escrever por aqueles que não podem escrever. Falar por aqueles que muitas vezes esperam ouvir de nossa boca a palavra que gostariam de dizer”.
A literatura poética não surge em um estalar de dedos ou de um toque mágico de alguma varinha de condão. Para a leitura e apreensão das mensagens contidas no bojo de textos literários, há a necessidade de observação dos preceitos teóricos que levam à compreensão clara desses textos.
Quanto à Tânia Meneses, esta tem demonstrado, além do forte traço modernizador de sua literatura, muita coerência poética:
Antes de ser poeta
É preciso ser anjo
Cantar aleluias
Tanger banjos
Neste quarteto, a autora mostra que o estado contemplativo a que a poesia remete é uma viagem paradoxal, na qual a liberdade enriquece-se com a contemplação, em comunhão com o real. Tendo as asas da poesia, como anjo, pode-se sobrevoar o mundo dos homens em busca do Belo e dividi-lo com seus leitores, unindo num todo a poetisa e o universo, cuja acolhida dá-se ao tangerem os banjos.
Nas asas da poesia voam os versos e chegam a longínquas paragens, muito mais facilmente, pelas estradas virtuais, as quais passam pelos portões e janelas de todas as casas à beira do caminho da virtualidade.
REFERÊNCIAS
http://www.recantodasletras.com.br/poesias/655370
http://www.recantodasletras.com.br/poesias/3422336
http://www.recantodasletras.com.br/artigos/2553366
http://www.recantodasletras.com.br/poesias/3294979
http://www.recantodasletras.com.br/poesias/3284902
http://www.recantodasletras.com.br/poesias/3082693
http://www.recantodasletras.com.br/poesias/2989184
http://www.recantodasletras.com.br/poesias/2957801
http://www.recantodasletras.com.br/poesias/2772931
http://www.recantodasletras.com.br/poesias/2695433
http://www.recantodasletras.com.br/poesias/2589395
http://www.recantodasletras.com.br/poesias/2589276
http://www.recantodasletras.com.br/poesias/3186279 http://www.unioeste.br/cursos/cascavel/pedagogia/eventos/2007 /Simp%C3%B3sio%20Academico%202007/Trabalhos%20Completos/Trabalhos/PDF/51%20Monica%20V.%20Senko.pdf http://teoriadaliteraturabrasileira.blogspot.com/2008/06/estetica- da-recepo.html http://pt.wikipedia.org/wiki/Ciberliteratura
http://www.sibila.com.br/index.php/estado-critico/216-producoes-poeticas-com-os-computadores
http://www.youtube.com/watch?v=rVaiw6tG5gs
Auerbach, P. W. Filosofia da Linguagem, Rio , Zahar, 1977. (Trad. de Philosophy of Language).
Chauí, Marilena. Convite à Filosofia, São Paulo, 2003.
Dussel, Henrique. Filosofia da Libertação, crítica à ideologia da exclusão, São Paulo
Freitas, Maria. T. A. O pensamento de Vigotsky e Bakhtin, Campinas, Papirus, 1998.
Goldstein, Norma. Versos, Sons, Ritmos, São Paulo, Ática, 1985.
Granger, G.G. Filosofia do estilo, São Paulo, Perspectiva, 1968. Edusp, 1974 ( trad. De Essai d’une philosofic du style).
La Taille, Yves de Piaget, Vigotsky Wallon, Teoria psicognética em Discussão, São Paulo, Sumusa, 1992. Murry, J. M. O problema do estilo, Rio, Livraria Acadêmica, 1968 (trad. De The problem of style)
Pessoa, Fernando. Livro do Desassossego, São Paulo, Cia das Letras, 1999.
Possenti, Sírio. Discurso Estilo e Subjetividade, São Paulo, Martin Fontes, 1988.
SARTRE, J. P. Que é Literatura? 03 ed. São Paulo: Editora Ática, 2006
Dalva Molina Mansano
SPIELBERG, PASTERNAK, CAVALO DE GUERRA E JIVAGO: A LINGUAGEM DOS OLHOS
A linguagem dos olhos é algo fenomenal.
Dizem por aí que eles espelham a alma em eloquente comunicação.
Constantemente me pergunto sobre o que diz o olhar das pessoas e procuro interpretar muito mais os olhos delas que as palavras que saem de suas bocas. É um hábito que adquiri na infância, talvez porque meu pai falava comigo no silêncio dos olhos. Eu sabia exatamente quando sua boca dizia sim e o olhar, não. Ou vice-versa.
Eu preferia atender à mensagem da voz de dentro, era sempre a mais coerente e raramente errava.
Leio hoje nos jornais sobre o novo filme de Steven Spielberg, Cavalo de Guerra, indicado (entre outros) ao Oscar deste ano.
A produção originou-se das lágrimas de Spielberg, quando
este assistiu à peça sobre a trama, que fora adaptada do livro de Michael Morpurgo e encenada pelo National Theatre de Londres.
Pergunto-me o que teria (desta vez) provocado as lágrimas
de um diretor cineasta, que já emocionou inúmeras vezes o
público. Basta que nos lembremos da sensibilidade exposta
em ET, da indignação provocada por Amistad, da saga aventureira de Indiana Jones, e de várias outras produções.
Descubro nestes duros tempos, em que imperam o cinismo, a violência gratuita e o individualismo, que ainda resta esperança para a humanidade. Algo filtrado pelo olhar do cavalo, um simples animal que em trincheiras da Primeira Guerra Mundial era mensageiro de amor e paz.
Então, volto à questão do que dizem os olhos e reflito sobre o que vi no tão intenso, profundo e significante olhar de Omar Sharif, quando representou o poeta russo Iúri Jivago, em sua muda fala de amor por Lara, interpretada por Julie Christie. Sempre aproveito as férias para rever bons filmes e compreender mensagens deles que a juventude me impedia quando de seus lançamentos.
Percebo agora, também, que a juventude é o melhor estágio de nossas vidas, mas que a sabedoria vem com o tempo e, na falta de vivência, muito se perde enquanto somos jovens.
que levaram a produção dirigida por David Lean a conquistar cinco premiações
do Oscar. Percebi claramente as causas e as conseqüências pelas quais Boris
Pasternak (prêmio Nobel de literatura) não pode levar seu romance até o povo russo.
Pasternak inspirado em Tolstoi e Dostoievski escreveu um romance de valor histórico em que mostra o drama vivido pelos russos após a Revolução, entremeado pelo romance entre o poeta Iúri e Lara, com a verdade lírica das gerações que o precederam.
O nome Jivago (de jizn, vida; jiva, vivo) é a pura demonstração da importância da vida em sua essência. Tal como Spielberg mostra a importância da esperança pela vida em sua plenitude. Assim, correlaciono olhares e vidas. Mais que tudo, nessa volta ao cinema de outra época, compreendi perfeitamente o que diziam os olhos poéticos do Doutor Jivago afastado de Lara, em que transparecia a dor do amor, impossibilitado de sobrevivência. Tanto disseram aqueles olhos de Iúri vazando pelas janelas, percorrendo as geleiras dos Urais! Intensos de vida retida e contida, gritando silenciosamente pelo amor de sua Lara. Olhos de Jivago, olhos de vida teimosa de esperança, como esta que um simples cavalo procura transmitir: amor, esperança e paz.
Realmente, fenomenal é o que se diz na mudez das falas.
REFERÊNCIAS: JL - Jornal de Londrina, 15 de janeiro de 2012, n.o 7.039 (p.18).
Filme Doctor Zhivago (Metro-goldwuin-Mayer)
Pasternak, Boris. Doutor Jivago, Trad. Zoia Prestes, Rio , 2008, BestBolso.
Dalva Molina Mansano
Janeiro de 2012
ANDALUZIA
Encantas e assustas, Andaluzia
Com tuas montanhas rudes e imponentes
Cravada no berço da Serra Nevada
As águas de ti correm em aragem fria
São lágrimas de teus descendentes
Na mágica bacia ardente de Granada
Tens ares de nobreza arisca
Tu que és moura de fina flor
Colhida em férteis vales de longevidade
Bordada de cerâmica mourisca
De amendoeiras e do olival tens o sabor
Vega de maior brilho e civilidade
Oh, amada Paloma Blanca
Na peregrinação da Virgem do Rocio
Guardada desde a ermida tu estancas
A fecundidade do orvalho sadio
Abençoaste as terras de Almonte
Com amor cingiste as casas brancas
De ti ouço guitarra flamenca, Sevilhana
Tal qual na Plaza Mayor após a siesta
E nos terraços Del Salvador as bulerias
Sapateando a dança no bairro Tirana
Em Córdoba bailas espanhola em fiesta
Trago em mim o quente de ti, Andaluzia!
HASTA LA ORILLA
E dou o que tenho em mãos errantes
21/05/2012 00:25
Nada é perder, tudo é ganhar
Ensino-te as coisas do paraíso
Vou, sim, até a tua margem nadar.
Dalva Molina Mansano
GÓGOL, TOLSTÓI E ANDREIEV - UMA ANALOGIA
Este artigo pretende estabelecer uma visão paralela entre três autores da literatura russa, verificando traços comuns em suas experiências de vida, as quais refletiram em suas obras de igual modo, pois nelas veem-se coincidências temáticas e estilísticas. Não se trata aqui de um estudo aprofundado das obras desses literatos, mas da analogia existente em seus escritos literários e constatação de similaridades.
Gógol é tido como o introdutor do Realismo russo, porém tal assertiva foi contestada por alguns críticos. O professor Boris Schnaiderman, considerado o maior especialista da literatura russa no Brasil, fala sobre essa contestação e explica que os escritores do começo do século XX perguntavam “que realismo é esse? Ele deforma a realidade, é um escritor caricatural por excelência.” E Schnaiderman afirma, categoricamente, que Gógol e Alexander Puchkin são considerados hoje os “grandes inovadores da literatura nacional russa” e que o primeiro, por sua capacidade plástica, conseguiu atingir o fenômeno da escrita realista em sua obra. Segundo ele, O Capote “é fundamental para se entender toda a cultura russa”. Gógol deformou com a intenção de melhor demonstrar a realidade.
Gógol, portanto, foi grande inovador da literatura mundial e inaugurou o melhor período da literatura russa, a despeito de ser ucraniano e não hereditariamente russo. Os especialistas literários afirmam que quase todos os escritores eslavos ficaram devendo algo a Gógol e isto se autentica pelas palavras de Dostoievski quando afirmou: “Nós todos saímos do “Capote”.
Tolstói ficou órfão precocemente, mas também teve a herança religiosa que se transformou em crise íntima e o levou a abandonar a literatura e a dedicar-se exclusivamente ao apostolado místico. Pregava o anarquismo cristão relacionado com as teorias da não violência de Ghandi. Esse apostolado provocou desentendimentos com a esposa, os quais promoveram o seu abandono do lar, para morrer dias depois, sozinho, numa estação. “... e todos os guerrilheiros, como o caçador em redor da fera morta, rodearam o corpo de Khadji Murat [...] Os rouxinóis, que haviam silenciado com o espocar dos fuzis, puseram-se de novo a trinar _ a princípio um só, bem perto, a seguir, os outros, à distância.” (Khadji Murat –Tolstói) Tal qual Gógol, foi um romancista que descreveu a verdade dos tipos humanos com suas expressões e caracteres reais. Igualmente, condenou a arte, todavia a realizou com brilho literário. Conforme Gógol o fez em seu “Tarass Bulba”, Tolstói escreveu um poema épico, que era um episódio das guerras do Cáucaso, publicado postumamente em “O diabo branco”, como testemunha das lutas.
Andreiev era de família paupérrima a quem faltava, inclusive, alimentação diária. Tal pobreza levou-o à tentativa de suicídio. Sua origem marcou-lhe o comportamento literário, e foi considerado o mais tétrico e sombrio dos novelistas russos. Procurou imprimir em seus contos e novelas os conteúdos realistas, entretanto seu temperamento mórbido provocava-lhe a capacidade criadora e impelia-o ao plano da imaginação. Isso o diferia da realidade comum, mostrando a vida observada sob aspectos grotescos e monstruosos, inclusive com tendências místicas. Transitando entre o Simbolismo e o Realismo, tratou entre outros temas, do aspecto sexual de personagens. Paradoxalmente, escreveu também comédias, onde demonstrava o cinismo, o egoísmo, a crueldade e a frieza dos seres humanos. Expôs ideias revolucionárias e rejeitou o regime soviético implantado na Rússia em 1917. Logo após a implantação do novo regime, exilou-se na Finlândia e, praticamente esquecido, faleceu em 1919. “A neve era primaveril, suave e perfumada. Primaveril o ar seco e forte que soprava. A galocha perdida de Sergei punha uma mancha negra da brancura da estrada. Assim saudavam os homens o nascer do sol.” (Os sete enforcados- Andreiev)
Tal semelhança fica patente após a leitura desses autores e corrobora-se no leitor a difusão constante de que as artes são reflexos do período histórico pelo qual passa a sociedade. Assim, os percalços e transtornos de um povo refletem-se paralelamente em todos os segmentos artísticos, especialmente na literatura.
Gógol, Tolstói e Andreiev observaram o povo russo do final do século XIX e começo do século XX e o retrataram com especial realidade, analisando tipos humanos ridículos (às vezes) e suas apreensões. Emitiram críticas e sátiras à burocracia existente em sua terra naquela época e deixaram obras imortalizadas que exerceram grande influência na literatura russa, introduzindo nela o Realismo, numa época em que os padrões românticos ainda prevaleciam na Europa.
Em 1836, já residindo em São Petersburgo, o escritor que fez “um retrato absurdo de um mundo absurdo” inicia um ciclo de contos fantásticos, cinco no total: O diário de um louco, A Avenida Névski, o Nariz, o Retrato e o Capote. Todos tangenciando um humor negro, em que ele mostrava a tendência de juntar-se à população esmagada pela autocracia do czar Nicolau I e criticar a monarquia russa. Após a leitura de O capote, entende-se a razão pela qual Gógol foi apontado como realista que deformava a realidade, pois a genialidade dele estava, exatamente, na capacidade de deformação. Reforçava traços reais de personagens, deformando-os e ampliando-os. Técnica essa que hoje é chamada de amplificação.
A literatura universal teve em Gógol não um escritor que retratou uma época, mas um escritor que a caricaturou. Em O capote, fez uma narrativa crítica genial à burocracia estatal. Gravitou habilmente entre o trágico e o ridículo, deixando o leitor indeciso, sem saber se ri ou se lastima diante do dilema de Akaki Acaquievitch, personagem principal da obra, quando seu mundo desabou ao receber a assombrosa notícia de que o alfaiate não poderia remendar, mais uma vez, o seu maltrapilho capote de trabalho. “De tanto pensar, Akaki Acaquievitch resolveu reduzir as despesas ao menos ao longo de um ano [...] Desde então ele não tomou mais chá à noite e não acendeu mais vela, levando seu trabalho para ser feito no quarto da proprietária. Na rua passou a andar na ponta dos pés para preservar as solas dos sapatos.” Em Tarass Bulba, observam-se as características de uma grande narrativa romântica, épica, em que é possível apontar uma epopéia dentro de uma novela. Poder-se-ia dizer, uma literatura ao estilo de Walter Scott. Nesse momento era um escritor do romantismo, todavia, já beirando o as características típicas do realismo russo.
Levou sua poesia aos palcos e fez comédia. Disse a um amigo: “Vamos rir, rir até não poder mais, viva a comédia!” Então, escreveu O inspetor Geral, peça cujo tema central era denunciar a corrupção nos órgãos públicos. Na epígrafe da obra, ele anunciava “Não culpes o espelho que tem a cara torta”, já indicando ao leitor que ali surgiriam mais deformações e caricaturas sociais. Almas Mortas é um retrato da servidão feudal na Rússia da época e a obra o consolidou como um artista sem paralelo na literatura russa. A realidade, ali colocada de forma tão forte e deprimente, deixou até mesmo seu autor perturbado, fato este que o fez mudar os rumos da narrativa, tentando abrandá-la. Assim, deixou-a um pouco mais otimista e chamou a primeira parte de Inferno, a segunda seria Purgatório e a terceira, Paraíso. Essa alteração nos planos narrativos mexeu com sua sensibilidade de poeta e com seus dogmas morais, isso o levou ao suicídio, após a morte de Alexander Puchkin, que foi o escritor que mais o incentivou, influenciou e que lhe sugeriu o tema a ser tratado em Almas Mortas.
Nicolai Vasilievitch Gógol, Leon Nikolaievitch Tolstói e Leonid Nicolaievitch Andreiev tiveram fatos pontuais parecidos em suas histórias de vida e em sua literatura. As características comuns aos três conferem a eles certa identidade. Tal fato pode ser observado ao analisarmos que Tolstói e Gógol militaram em tempos de guerras e isso nitidamente aparece em suas produções literárias.
Para exemplo, Gógol escreveu um poema épico em prosa, cuja ação se passa no século XVI, quando os cossacos lutavam contra os poloneses e os turcos. Tolstói foi servir num regimento de linha no Cáucaso, fato que o influenciou na criação do romance “Os cossacos”. Participou da Guerra da Criméia e a descreveu em “Narrativas de Sebastopol”. Andreiev em sua obra Riso Vermelho mostra indignação frente à guerra russo-japonesa, de 1904. Descreve o horror bélico e o “riso vermelho dos demônios e dos deuses”. “Vastas e marulhentas correm as águas do Dniester, as profundezas alternando com os bancos de areia; braços e desvios escondem-se entre os juncos e salgueiros marginais, as grandes e pequenas aves de rapina. O grito estrídulo do cisne selvagem estruge no ar, por cima do lençol de água esplendoroso, sulcado em todos os sentidos. [...]” (Tarass Bulba – Gógol)
Gógol herdou do pai o temperamento expansivo e a inclinação literária com forte capacidade de apreender os tipos humanos. Da mãe teve o espírito religioso que o conduziu ao misticismo doentio dos seus últimos anos de vida. As preocupações religiosas desatinaram seu espírito, a ponto de levá-lo à queima de manuscritos inéditos.
Tolstói ficou órfão precocemente, mas também teve a herança religiosa que se transformou em crise íntima e o levou a abandonar a literatura e a dedicar-se exclusivamente ao apostolado místico. Pregava o anarquismo cristão relacionado com as teorias da não violência de Ghandi. Esse apostolado provocou desentendimentos com a esposa, os quais promoveram o seu abandono do lar, para morrer dias depois, sozinho, numa estação. “... e todos os guerrilheiros, como o caçador em redor da fera morta, rodearam o corpo de Khadji Murat [...] Os rouxinóis, que haviam silenciado com o espocar dos fuzis, puseram-se de novo a trinar _ a princípio um só, bem perto, a seguir, os outros, à distância.” (Khadji Murat –Tolstói) Tal qual Gógol, foi um romancista que descreveu a verdade dos tipos humanos com suas expressões e caracteres reais. Igualmente, condenou a arte, todavia a realizou com brilho literário. Conforme Gógol o fez em seu “Tarass Bulba”, Tolstói escreveu um poema épico, que era um episódio das guerras do Cáucaso, publicado postumamente em “O diabo branco”, como testemunha das lutas.
Andreiev era de família paupérrima a quem faltava, inclusive, alimentação diária. Tal pobreza levou-o à tentativa de suicídio. Sua origem marcou-lhe o comportamento literário, e foi considerado o mais tétrico e sombrio dos novelistas russos. Procurou imprimir em seus contos e novelas os conteúdos realistas, entretanto seu temperamento mórbido provocava-lhe a capacidade criadora e impelia-o ao plano da imaginação. Isso o diferia da realidade comum, mostrando a vida observada sob aspectos grotescos e monstruosos, inclusive com tendências místicas. Transitando entre o Simbolismo e o Realismo, tratou entre outros temas, do aspecto sexual de personagens. Paradoxalmente, escreveu também comédias, onde demonstrava o cinismo, o egoísmo, a crueldade e a frieza dos seres humanos. Expôs ideias revolucionárias e rejeitou o regime soviético implantado na Rússia em 1917. Logo após a implantação do novo regime, exilou-se na Finlândia e, praticamente esquecido, faleceu em 1919. “A neve era primaveril, suave e perfumada. Primaveril o ar seco e forte que soprava. A galocha perdida de Sergei punha uma mancha negra da brancura da estrada. Assim saudavam os homens o nascer do sol.” (Os sete enforcados- Andreiev)
Tolstói também mostrou sua posição pacifista/anarquista e recusou toda forma de governo e poder. Grande pensador que era, destacou-se como autor realista. Escreveu Anna Karenina, onde abordou o adultério e o ambiente aristocrático de Petersburgo em que explorou análises psicológicas de personagens. Na narrativa fez apologia à serenidade e às doçuras da vida rural. É considerada como uma das mais importantes obras do Realismo universal.
Evidencia-se, então, o fato de que os três autores comentados são considerados fenômenos marcantes da cultura e da literatura russas. Apropriaram-se da psicologia nacional com seus graves problemas sociais e de corrupções políticas e econômicas. São autores que aliaram suas experiências de tempos bélicos às origens familiares e, com estilo inovador, dentro do realismo fantástico, ofertaram a leitores de todo o mundo o conteúdo profundo das vicissitudes sociais e humanas de suas obras literárias.
Há fatos comuns em suas vidas particulares, cuja veracidade é comprovada em suas biografias. Os reflexos dessas coincidências repercutiram em seus escritos e propiciaram grandes produções com estilos e temas similares, entretanto com a característica própria de cada um.
REFERÊNCIAS:
Jackson, W. M. Inc. Grandes Romances Universais, Volume 7, São Paulo. Gráfica e Ed. Brasileira.
BRETON, Publicação do grupo por uma Arte Revolucionária e Independente, n°. 1, Agosto de 2011, páginas 8 e 20. http://www.lpm.com.br/site/default.asp?TroncoID=805134&SecaoID=948848&SubsecaoID=0&Template=../livros/layout_autor.asp&AutorID=607090 http://educacao.uol.com.br/biografias/leon-tolstoi.jhtm http://pt.wikipedia.org/wiki/Leonid_Andreiev http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/LeoNiAnd.html http://www.infopedia.pt/$leonid-andreiev http://russiashow.blogspot.com.br/2011/03/riso-vermelho-e-uma-visao-fantastica-e.html http://russiashow.blogspot.com.br/search/label/LEONID%20ANDREIEV
Dalva Molina Mansano
30.04.2012 00:37
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