sábado, 29 de setembro de 2012
EM BAMBAS CORDAS
São tortos os caminhos,
mister é endireitá-los
em árduas caminhadas.
Difícil tarefa de equilíbrio,
se relaxo em alguma encosta
em bambas cordas espiraladas.
Dalva Molina Mansano
2011
APRENDO LIÇÕES
Cantam as cigarras no entardecer,
longe,
tão longe que apenas as ouço,
não as vejo.
Diviso os pirilampos
precipitados na noite que se apressa
Por causa da chuva,
que lentamente derrama seus pingos.
Perde-se o andamento normal
no caminhar da natureza
em descaminhos.
Desembestam as galinhas d’angola
a arrumar abrigo para pernoite.
acreditam em suas asas
e, uma a uma, como saltadores do espaço,escondem-se.
Entre os galhos da mangueira.
Sob a luminária da varanda
Aprendo lições e apuro meus ouvidos.
Nitidamente, ouço a voz de Deus
que comigo fala por intermédio da natureza.
Dalva Molina Mansano
2011
A MÚSICA DA CHUVA
A música da chuva
Joga ordens sobre a terra,
Perfilam-se os pingos
Soldados armados de vida.
Sou tão pequena na largueza
que em mim se encerra,
neste canto de mundo
ouvindo, vendo e sentindo.
O barquinho vai tão natural,
que chego a ouvir Pessoa.
Um Pessoa a me dizer
“que importa, se sentir
É não se conhecer”
“Oiço, como se o cheiro
Das flores me acordasse”.
Em cada folha há um som
E nelas ouço de Pessoa a voz,
Bate apressado o coração
Como se estivéssemos a sós.
“Redemoinha o vento,
Anda à roda o ar."
Vai meu pensamento
Comigo a sonhar”.
Dalva Molina Mansano
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
ABRE-SE A FITA
Não, não me tragam suco,
quero um Cabernet Sauvignon
encorpado.
Para erguer um brinde
e este tira-gosto
salgado.
Com tempero aprimorado,
a ti e contigo neste fado
supremamente ergo a taça.
Claramente abre-se a fita,
nela vejo nossos corações alados,
Saúdo, com o néctar, a alma contrita.
E o rufar das asas em descampados.
Dalva Molina Mansano
SOBREVIVÊNCIA
A planta resiste
-Única haste de esperança-
perdida entre o áspero das cascas
da centenária figueira.
Os olhos adernam em turvas águas
marulhados de ausências.
Ambos com máximo esforço
Resistem em franca e brava sobrevivência.
Dalva Molina Mansano
SOB A VERDADE DAS ESTRELAS
O homem preparou a terra
Com as mãos de sonhos,
Arou,
lavrou,
Fez sulcos.
A chuva molhou as sementeiras.
No macio delas,
Eu semeei poesia
De todos os tons,
De sons diversos,
O vento cantou.
Os canteiros acolheram o plantio.
A melodia poética
Misturou-se ao ouro do sol,
Vi o campo transformado
E colhi o ramalhete
Que te dou em versos.
Todas as noites,
Sob a verdade das estrelas,
há cantigas do trigo que será pão
e de poemas que espalho sob o sereno
ao toque da brisa noturna.
Dalva Molina Mansano
NADA MAIS HÁ
Nada mais há
entre os lábios sedentos
pelo sal experimentado
e o cristal da taça
em sobras de vermelho.
A não ser a dor grave
deste poema de Neruda
transfundindo o perfume
dias e noites perpassando
para pousar ao meu lado
no rigor da madrugada.
Dalva Molina Mansano
EM MEU PEITO
Como fosse em pergaminho
Um verso passarinho
Em meu peito pousou
Pequena ave a pulsar
Transfundiu o seu penar
Em meu peito se aninhou
Senti seu coração assim
Ansioso junto a mim
Em meu peito respirou
Foi intenso o instante
A respiração arfante
Em meu peito arquejou
Bateu em aflição
Desesperado o coração
Em meu peito palpitou
Com asas abertas, querubim
"Quae sera tamen, libertas" enfim
Em meu peito sossegou
Dalva Molina Mansano
O SIMPLES COM A REALEZA
Simples são elas, as flores do campo
nascem e sobrevivem sozinhas.
Enfeitam os caminhos com bom-dia
Maria-preta, boa-noite, manacá-da-serra.
Bem no alto, pendente, o brinco-de-princesa
Uma magia lindamente encerra
Misturando o simples com a realeza.
Dalva Molina Mansano
ÊMBOLO
Quero aprender com outros o que posso ser,
Saber se a solidão absoluta existe e se acalma,
perder do zelo o excesso, ouvir e conviver.
Quero entender rastros e sombras que candeias
grafam, permanentes, nas paredes de minh'alma,
deixar que flutuem sem adernar os barcos nas veias.
Quero escrever poemas em alva cal
no amanhecer embebedado de lua e sol,
rabiscar seu nome no chão do meu quintal.
Quero convencer-me entre linhas desta lida
que me quero útil com meus versos, no arrebol
entregar-me à pedra no moinho da vida.
Quero fazer nos extremos da poesia em unguento
que entendam minha incapacidade de administrar
o êmbolo que de mim expulsa tal sentimento.
Dalva Molina Mansano
DOCE RECANTO
Minha filha deu-me a luz
deste canto de palavras,
Embaralhei-me no aconchego delas!
Dalva Molina Mansano
dez. 2009
MÃE
És estrela de minhas manhãs,
tardes e noites
e brilhas na imensidão!
És tudo o que pulsa em meu coração.
Estes versos foram-me presenteados por minha filha,
Carla Molina Mansano.
SAUDADES DE TI
Tentei fazer-te um poema,
atrapalhei-me e não consegui.
A voz calada,
caminhos desencontrados,
palavra embaralhada...
Acho que são saudades
de ti.
Para o Vítor
Dalva Molina Mansano
ESPERANÇAS EXPATRIADAS
Por trás dos mares em duras lembranças,
Ironicamente, para clarear
a solidão dos versos, “O sol também
se levanta” em meio a esperanças expatriadas.
Das batalhas, as dores dançam em Fiesta
De San Fermin até que se ponha o sol.
Ai, Pamplona, arena e rua de la tierra,
Ensina-me o caminho da aurora.
Tantos conflitos com o sol se erguem,
Arautos vindos de Montparnasse e do mal.
Escombros humanos na arena em sangria,
“mas a terra permanece, eternamente”.
Dalva Molina Mansano
Agosto de 2012
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
DEIXA CORRER UMA LÁGRIMA
Naquele banco, à beira da vida
senta-se ela, à espera do nada.
Tanta gente já passou,
muitos foram e não voltaram.
Observa o vai e vem
dos transeuntes, despercebida
aguarda descer o sol
silenciosamente,
sem explicar-se.
Deixa correr uma lágrima
Diariamente.
ELA PISADA
Nas pedras,
ela pisada.
Dos caminhos,
esquecida.
A flor exala
o perfume
Divino sinal
de vida.
Dalva Molina Mansano
FLOR ESCONDIDA
Os cabelos de ranchinho
Lembram o garoto da tela
Carrega a flor com carinho
Escondida atrás da lapela
Dalva Molina Mansano
domingo, 23 de setembro de 2012
AI CÉU DE MINHA INFÂNCIA
Ai céu de minha infância
De encarnado anoitecer
Ai dia feito noite
De barrado a entontecer
Ai dor no meu peito
De saudade a enlouquecer
Ai passos que aqui dei
De criança, o alvorecer
Ai dores em mim
De ausências a embrutecer
Ai infância adormecida
Em minha terra a doer
Ai amores de minha vida
Esta dor me faz morrer.
Dalva Molina Mansano
Num entardecer,
em pleno ocaso,
passando por São Martinho.
QUEBRA-CABEÇAS
A vida é um quebra-cabeças
alguns não encontram o principal
Incompleto, fica às avessas
E a história sem final
Dalva Molina Mansano
À JANELA
À janela, todas as noites
ela
Em profundo silêncio
sombrio
De emoção, carregada
Juntou
à água a sua saudade.
À espera de que surgisse
O amado
ao raiar do dia
Perturbou-se a superfície
Límpida,
Esperanças espantadas por ondulações.
Angústia
e desamparo ecoaram
sonoros
Em sua voz solitária,
ao relento.
Foi este mais um trágico
caso
De amor sem flor,
fruto
ou rebento.
Dalva Molina Mansano
sábado, 22 de setembro de 2012
À BEIRA DO LAGO
À beira do lago
ela estacou,
Como o lírio-d´água que se ergue
puro, rente ao charco
e ficou
em algum lugar,
perdida, olhando
para o lago ao luar,
anos a fio.
Esperando.
Dalva Molina Mansano
sábado, 15 de setembro de 2012
CACOS DA ALMA
É de ferir o coração
ver os cacos da alma colados,
após a desilusão.
Por perfeito que seja o trabalho,
há nela as cicatrizes
de uma cola que deixa marcas.
Tal qual o cofrinho de louça
da criança sonhadora,
com tantas promessas de alegrias.
Depois da queda,
cacos espalhados,
o conteúdo mostra-se tão pouco e irrisório.
Refazer a louça é inútil,
já não cabem depósitos!
E alma fica vazia.
Dalva Molina Mansano
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
AGOSTO - A TERRA FICOU ÁRIDA
paisagem cinzenta, vazia, ressequida
vida esquecida, restos de vida,
ruína, brasas corrosivas,
dor, ardor, torpor
labaredas, horror
fuligem, fumaça
incineração,
fagulha,
carvão
hulha
cinza
pó
Dalva Molina Mansano
21/08/2010
terça-feira, 11 de setembro de 2012
À PORTA
No abismo sem fim
Do nada à porta
Busco palavras em mim
Igual Drummond, eu torta
Dalva Molina Mansano
24/05/2011
A POESIA
No horizonte, desponta o sol
hoje tímido e amedrontado.
Mais forte que o medo
é a fresta que ele abre.
Entroniza-se no espaço,
elevado à mais alta dignidade!
Embora seja pequena abertura,
risca um brilho no céu,
teimoso, briguento e brincalhão
com as cores mais bonitas
e, em raios ofuscantes,
grita-me: sou a poesia!
Dalva Molina Mansano
15/07/2012
À NOITE
À noite
Quando no meio da noite
acordo e te descubro
esparramo sonhos
em lençóis
Dalva Molina Mansano
A MÃO E A IMAGEM
Ficou guardada a nítida imagem
Pura e cristalina na lembrança
Da mão a tocar a mensagem
Estendida acolhedora em fiança.
Pura e cristalina na lembrança
Da mão a tocar a mensagem
Estendida acolhedora em fiança.
Evaporou-se a silhueta
Vazia a mão perdida ficou
Espalmada em triste sarjeta
Sem o envelope que guardou
Tal crisálida sem a borboleta.
Dalva Molina Mansano
18/05/2011
sábado, 8 de setembro de 2012
SÉRIE COMENTÁRIOS - PENSAMENTO VI
No mi hermana, eso non, jamás dejar la canción,
em razón de que eso es morir, es pena de muerte.
Aun que sus versos sean bellos,
hermosos,
a nadie diga de esta agua no beberé
y conoce que mientras hay vida, hay esperanza.
Las palabras se las lleva el viento
y piense que piedra movediza nunca moho cobija.
Cante si entre la gente y no oclua la ventana,
deja adentrarse el lumbre a lucir em su corazón, siempre.
Yo se que me comprende.
Es todo mui hermoso.
Dalva Molina Mansano
NOSSOS VERSOS GRITAM
Nossos versos gritam
nos quintais, soltos
entre árvores,
pulam cercas,
sobem em telhados,
empinam sonhos.
Penduram-se em galhas,
alcançam a melhor fruta,
lambuzam o rosto,
riscam o chão,
brincam na enxurrada,
soltam barquinhos de papel.
Sujam os pés na poeira,
fazem fuá na lama,
cantam em rodas,
correm pra lá e pra cá,
giram pião com fieira
Dalva Molina Mansano
O MEDO É FRUTO DO CONHECIMENTO
O medo é fruto do conhecimento,
nasce da vivência experimental,
prende-nos e enleia como a mosca
enredada no fio da aranha mortífera.
Vã é a tentativa de desvencilhar-se,
Mas, de vivências pode nascer a libertação,
em verdades diversas, experiências vividas,
aprendizados anteriores de boas lições.
O pulsar em nossas veias, latente
dirá se devemos enfrentar o temor
ou fugir dele sem desamarrar fios,
mantendo, assim, o olhar de pavor.
Desta forma, o vibrar de outrora
traça as consequências do existir,
feito a sopa que esfria no prato
e separa a gordura coagulada.
A noção do insalubre liberta-nos,
das doenças ameaçadoras e tristes
deixemos, pois, o medo fora de nós
agregado à gordura solta da sopa
Dalva Molina Mansano
EMBRULHO
Tantos pacotes de presentes
Com fitas coloridas eu fiz,
Com seus papéis enfeitados
Das cores, o supremo matiz,
Puros sentimentos embrulhados
Sob as mesas escondi.
Para não serem descobertos,
Antes de a festa começar,
Ocultei-os em laçarotes e
Alguns nem foram abertos,
Largados ficaram nos pacotes.
Por não valerem o tempo gasto
Ou por falta de exuberância,
Num canto qualquer e casto
Permaneceram incólumes, intatos
Não denunciaram a importância.
Depois da festa, recolhi as fitas,
Rasguei os papéis da infância
E deles fiz grande fogueira.
Na chama, as labaredas tinham vida
Porém, cinzas viraram, o matiz esmaeceu
E a cor sem graça eles ganharam
Do pó deste tempo meu.
Cinza que voa e passa
Levada pelo vento,
Nas asas do caduceu.
O conteúdo permanece
Embora pareça entulho
Guardei-o na alma em prece
Daqui não escapa o embrulho.
Dalva Molina Mansano
O X DA QUESTÃO
Tem vermelho no tom
E não entra na casa
de portas e janelas abertas.
O berço de outrora
Empacou o vai-vem,
Desobedecendo às ordens
Dos bonecos de caras sempre iguais.
Alegria mentida no riso falso,
Inventada no coração,
Que insiste, em pulsar atrevidamente.
Há uma capa rasgada
Esgarçada e puída, definitivamente
Em que já não posso - mesmo querendo-
Apoiar o cansaço da cabeça.
Dalva Molina Mansano
NA PAREDE
Os olhos tão escuros
afundados na noite
penduraram o coração na parede.
Uma bela tela:
Assim, dói menos o peito
e zelam de longe
os olhos impacientes.
Taquicardia,
A parede treme,
Os olhos resistem
Fixos, paredes brancas
O anjo internado
Sente que está sem coração
E estremece
(Melhor olhá-lo de longe)
Dalva Molina Mansano
PAI, EU VI ...
Pai,
Eu vi a garota dos olhos verdes
Em desespero, fugindo da guerra
Amedrontada diante do horror
E exagero de sangue na terra.
Pai,
Eu vi a menina que corria nua
Com o rosto marcado pela dor
Em passos descontrolados na rua
Queimada e com olhar desolador.
Pai,
Eu vi no rosto da jovem a cicatriz
Eternamente marcada pelo marido
Que lhe cortou cabelos, orelhas e nariz
Deformada e com seu direito banido.
Pai,
Eu vi a criança que se ateou fogo
Temendo a imposição de um casamento
Que lhe forjasse as regras do jogo
Horrendo da união em sofrimento.
Pai,
Eu vi o homem com o filho nos braços
Morto, inocente, no tiroteio
A criança que dava os primeiros passos
Assassinada pelo ódio sem freio.
Pai,
Eu vi a mãe abraçar a filha
Evitando-lhe aspirar aquele gás
Perdidas no centro da ilha
Do sol nascente de tempos atrás.
Pai,
Eu vi estampadas as dores
De cada um com sua cruz
E o mundo com seus horrores
Não se lembrando de Jesus.
Pai,
Eu vi Vossos olhos cobertos
De pena e de perdão, entristecidos
Por pregarem de braços abertos
PERDI
Perdi a mão amiga e o sorriso
De boas vindas
Perdi seu abraço natural
Que está em mim ainda
Pago pena por tê-lo evitado
Naquele dia fatal
Perdi a palavra doada
E de sua força a certeza
Perdi a companhia certa
De suas mãos a defesa
Na garganta que me aperta
Perdi o som de sua voz
E a gargalhada comigo
Solitária em dor atroz
Perdi e não há saída
Para essa perda inevitável
Ficou em mim a ferida
Exposta à lágrima incurável.
Perdi o afeto sem fronteiras
Que me iluminava em triste momento
Perdi a fala na notícia derradeira
Só não perdi a saudade e o lamento
O macio de sua mão
A gostosa falta de cerimônia comigo
Perdi a sinceridade humilde
Em nós sinal da força em união
Como convém entre amigos
Perdi sua capacidade exclusiva
De envolver-se
E a lição de perdoar a mim mesma
Em pecado
Perdi a sua lógica tão simples
Sem do amor abster-se
De aceitação do que não seria alterado.
Restou-me o choro e a visão
A lembrar-me dia a dia em quatro meses
De suas lágrimas e as minhas no portão
No baixar das cortinas a revezes.
PERDIDA(MENTE)
Perdida(mente)
Remexidas as gavetas,
encontro o vazio
do que antes me completava.
Folheados os livros,
Não leio o poema
Mais bonito que procurava.
Em que página se perdeu?
Dalva Molina Mansano
Abril/2010
SOMOS UM
perguntas sem respostas
quantas
respostas sem perguntas
tantas
que respondem
sim
sem que se questionem
não
nada expliquem
esqueçam
não há o que esclarecer
luz
tudo claro está
fato
somos um
Ponto final
Dalva Molina Mansano
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
SE TENS FOME DE AMOR
Se tens fome de amor,
Não o substituas
Por coisas e inutilidades.
Coisas e inutilidades não te abraçam.
Se queres ternura,
Entrega-te
À suavidade de um bem
Que te seja companheiro.
Oferece teu tempo útil
Junto com o que tens a dar.
Assim, só assim e pronto.
Terás o pó dourado
Em teus cabelos
Trazido pela brisa
Que mansamente meneou
Os cabelos de quem amas.
E sorrirás com as faíscas do brilho
Do amor que chega
Em ti espalhado em alegrias
douradas
Dos abraços que receberás.
Dalva Molina Mansano
PEDRAS VERDES
Sobre a mesa de cabeceira jaz
de pedras verdes o colar,
tênue fio de esperança rompida
a lembrança na janela do olhar
guardada na página esquecida
a flor de açucena desfolhada, a esperar.
Geme lá fora o vento triste
rompe a noite, sangra e dilacera
um grito fino e cortante em riste
decepa a asa do vôo noturno, encarcera
o rastilho sensível e lúbrico no escuro,
esconde a sensual chama em aurora revoltada
e poucas folhas emolduram o silêncio duro.
Brada o duplo parto na noite pranteada
de dor e saudade que andam em par
desde ontem na esperança descarrilada,
perdem-se as pedras do colar,
surgem as cores da lembrança desbotada
que o fio já não pode sustentar.
Dalva Molina Mansano
SUPORTAM O IMPROVÁVEL
A planta resiste única
Haste de esperança em seca terra
Perdida entre cascas ásperas
Os olhos tristes da moça
Marulhados de ausência
Adernam em turvas águas
Ambos suportam o improvável
Em lacerante sobrevivência
À beira de onde houvera vida
Dalva Molina Mansano
SURGE UM GRANDE AMOR NO 1º DIA DO INVERNO
Era Junho, mês de festas
balões e fogos pipocando no espaço.
Dia frio, primeiro dia do inverno!
Suspense no ar, dores estranhas
O grito amarrado na garganta.
O corpo pedia trégua,
Alívio à respiração.
Suspense...
Que realidade surgiria?
Quais sonhos seriam desvendados?
Frio... muito frio.
Emoções que subiam e desciam
dentro de mim!
Perguntas...
Respostas evasivas.
Nuvens lá fora, sol escondido!
De repente, cai a chuva
O tempo gela!
O sobe-desce continua,
Dor! Dores!
Água, muita água
Límpida, fria, nítida.
Rompe-se o silêncio,
Surge o Anjo de face rosada!
É ela!
O frio acabou,
as respostas vieram,
nunca mais fiquei sem elas.
Brilho no céu, mais intenso
festejando o primeiro dia do inverno,
outro Anjo visitando,
vestido de veludo.
Um sorriso com brandura
Em minha face descansada,
é ela!
O mundo modificou-se!
É ela!
A minha filha!
(Parabéns, minha adorada Carla, filha encantadora!)
Dalva Molina Mansano
Junho 2010
BRAÇOS QUE ME CARREGAM
Tão querida essa criança
Pura como a fonte
Que jorra carinho
Ingenuidade e brilho
Pequenina e saltitante
Riso de notas brancas,
Suave tela emoldurada
Por meigos olhos
Alegria que canta
Entre as paredes
Mãos finas de longos dedos
Que alcançam minha alma
Braços que me carregam
Sorrindo, arteira, guria
Filhinha moleca, sapeca
Fio de luz e vida
Dalva Molina Mansano
QUANDO SE LEVANTA O SOL
Quando se levanta o sol,
de minha pele não zelo,
com braços abertos recebo
o calor de seus raios.
Setas poderosas me transpassam,
afogo-me em dores, desnorteada
perco o rumo de mim.
Jogo âncora e me bronzeio,
plena de luz e de encanto,
totalmente entregue
ao dourado do céu aberto .
Dalva Molina Mansano
FEZ-SE MULHER
Um dia a conheci
trazida pelo destino.
Depois de muitas voltas,
mãos ocultas a trouxeram
por onde eu havia de passar
e ali a puseram.
Vendavais, tempestades
Palavras desconexas,
brincadeiras, verbos
desconsertados,
comportamento arredio.
Algo havia, porém
Que não combinava
Com os gestos:
Os olhos e o coração!
Enquanto palavras
Acendiam labaredas,
eles imploravam
Afeto e paixão.
A alma despejava
pedidos, implorava
Compreensão.
No andar do tempo,
a criança fez-se mulher
E surpreendeu àqueles
que não a sabiam enxergar.
Desceu do galho,
guardou as pedras e
desfez-se do estilingue.
O coração e os olhos
são os mesmos
e continuam
atirando amor!
Dalva Molina Mansano
(Com carinho, para minha sobrinha Érica)
Maio 2010
CIGANA
Vestido branco, estampas coradas,
sandálias rasteiras e cabelos soltos
ao vento fazendo festa.
para o filho e mãe, amores envoltos
de quem nasceu e fez nascer
cantigas em suave seresta.
Eis a alegria e a paz estampadas
dançando em olhar contente
em lições já decoradas
ensinando a toda gente.
Dalva Molina Mansano
UMA E OUTRA
Espalhou-se, arquejou, lutou bravamente
Mesmo diminuída, resistiu aos maus tratos
E às intempéries agitava-se
Agarrada nas próprias forças, fingia
Pouco caso ao desprezo
A outra permanecia com pose
Aristocrática resistente a vendavais
Imponente em ramas de rainha
Imperial manteve a galhardia
Veio o golpe final e algo lhe restou
Aquela que era tão festiva
Sem defesa, porém perdida
Foi trucidada, virou palha
A outra teve a sorte que sempre teve
Ganhou no embate e está em pé
A touceira de capim marmelo secou
A palmeira ornamental agita-se feliz
Dalva Molina Mansano
http://site.granjadopedrinho.com.br/fotos-de-plantas-ornamentais.html
MEU AMOR
Meu amor traz café na cama,
descobre-me a cada dia,
brinca com meus cabelos.
Meu amor me enleia
e me olha sorrateiro
bem de perto,
que me traz estrelas
nas retinas.
Revira tudo,
com jeito moleque,
canta comigo
Ai meu amor, meu amor!
Dalva Molina Mansano
Abril, 2010
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
SILÊNCIO
Calou-se entre as rosas nascidas
e pássaros de vôos abertos
sobre os jardins ensolarados.
Silêncio.
Nunca mais dará um verso
Mesmo frouxo a quem quer que seja,
Porque são dela e estão atados.
Silêncio.
Ficaram entre colibris
e abelhas beijando seus lírios,
inebriados por manacás.
Silêncio.
Perdidos os versos gentis
Das canções os sons em delírios,
Mesclados ao tom do lilás.
Silêncio.
Serão aqueles versos retidos,
Impedidos de sonhar, banidos
Da pauta, dos jardins ao luar.
Silêncio.
Dalva Molina Mansano
set./2012
Dalva Molina Mansano
set./2012
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
SÉRIE COMENTÁRIOS V - PENSAMENTO
Nenhuma ciência sabe do excesso de amor!
Elas todas não têm respostas para isso.
Conseguem tergiversar sobre o tema,
porém nada explicam, porque não há explicação.
O que não se explica, explicado está.
Dalva Molina Mansano
SILÊNCIO
Não mais lhe darei versos,
Eles são meus e estão presos
Na lei que lhes obriga
A obediência ao silêncio.
Dalva Molina Mansano
03/09/2012
SÉRIE COMENTÁRIOS - PENSAMENTO IV
Nas veredas da vida,
é possível encontrar a paz!
Foto: Google
Dalva Molina Mansano
Foto: Google
Dalva Molina Mansano
sábado, 1 de setembro de 2012
DE TI SUBIU UM ANJO
A terra tremeu
Fez-se o silêncio
Gritante da morte
Pousei a cabeça
Perdida em teu peito
De pássaro calado
Pesei meu corpo
Sobre a lassidão
De teu ser transformado
Pequena matéria
Frágil e abandonada
No leito de vida apagada
Já não me afagaste
Com tuas santas mãos
Nem ouvi tua voz
A suplicar insistente
Que eu não chorasse
De mim partiu o soluço
Fundo do escuro poço
Em que fiquei
De ti subiu o anjo
Que me acompanha
E diariamente me diz
__Hoje já posso pedir __
Não chore por mim
Sou teu segundo anjo
Teu Querubim
A quem escolheste
E nasceste por mim.
Dalva Molina Mansano
(para minha mãe)
IMPASSÍVEIS
Tão indefesas são elas,
as flores do campo,
crianças a enfeitar o espaço.
Ingênuas, ambas espalham belezas,
não percebem os riscos que correm
doces e encantadoras, meigas
sem escudos, os combates enfrentam.
De peito aberto aos ventos
ignoram as largas passadas
da destruição e das tormentas,
não se dão conta da luta insana
entre o bem e o mal
seguem impassíveis
e encantadoras
como só elas sabem ser.
Dalva Molina Mansano
INDECIFRÁVEIS
Em alva fronha
no breu da noite,
diviso o rosto suave
sorridente e terno
em lábios que confundo
com outros que vejo.
Dizem-me, de longe,
palavras indecifráveis
em meneios labiais.
Tento tocar a face
tangida pela saudade
de minha mãe,
quero o som alegre
de suas palavras
Dalva Molina Mansano
LABAREDAS – FIM DO TEATRO OURO VERDE
O que era ouro
virou pó.
O que era verde
tornou-se cinza.
O sonho das coxias
não entra mais em cena.
Fecharam-se as cortinas
do palco que morreu.
Último ato da peça
na tarde do domingo.
Rolos de negra fumaça.
Cena final
do que era doce
e se acabou.
FIM
Dalva Molina Mansano
"LAGO DOS CISNES"
Lago dos cisnes Tchaikovsky
Mitos de Dionísio e Apolo se confrontam
Razão contra emoção
Buscar a perfeição?
Incapacidade da mente de lidar com questões insolúveis
Desejo de superação
Superar os medo e transformar-se
Superação das dificuldades físicas
Apolo deus da perfeição, da harmonia,
Da beleza , do equilíbrio e da razão
Estamos todos envolvidos, inconscientes
no lago dos cisnes, como personagens
de Tchaikovsky na dança da razão
pares incongruentes do mal do bem,
contra a supremacia da emoção.
Insana busca de superação
das dificuldades físicas,
procurando harmonia entre beleza
como Apolo, equilíbrio e razão,
com respostas a questões sem nexo.
Adiadas por nós mesmos, amplexo
da alma e do corpo, suplicando sincronia
há ordem mental, sem movimento obediente,
a mente comanda no auge da sabedoria
o corpo não corresponde, pede aposentadoria.
Ingrata consequência de busca da perfeição,
insana luta por analogia, na contramão
corpo e mente em guerra fria
morte anunciada do físico, em exaustão
em plena vida do intelecto, em agonia.
Eterna tentativa de fuga ao pré-concebido
o branco do cisne no negro enfim, fundido.
Dalva Molina Mansano
foto: ttp://lucasfilmes.wordpress.com/tag/o-lago-dos-cisnes/
Mitos de Dionísio e Apolo se confrontam
Razão contra emoção
Buscar a perfeição?
Incapacidade da mente de lidar com questões insolúveis
Desejo de superação
Superar os medo e transformar-se
Superação das dificuldades físicas
Apolo deus da perfeição, da harmonia,
Da beleza , do equilíbrio e da razão
Estamos todos envolvidos, inconscientes
no lago dos cisnes, como personagens
de Tchaikovsky na dança da razão
pares incongruentes do mal do bem,
contra a supremacia da emoção.
Insana busca de superação
das dificuldades físicas,
procurando harmonia entre beleza
como Apolo, equilíbrio e razão,
com respostas a questões sem nexo.
Adiadas por nós mesmos, amplexo
da alma e do corpo, suplicando sincronia
há ordem mental, sem movimento obediente,
a mente comanda no auge da sabedoria
o corpo não corresponde, pede aposentadoria.
Ingrata consequência de busca da perfeição,
insana luta por analogia, na contramão
corpo e mente em guerra fria
morte anunciada do físico, em exaustão
em plena vida do intelecto, em agonia.
Eterna tentativa de fuga ao pré-concebido
o branco do cisne no negro enfim, fundido.
Dalva Molina Mansano
foto: ttp://lucasfilmes.wordpress.com/tag/o-lago-dos-cisnes/
MINHA AMIGA CELÊDIAN
Quando de ti vejo o perfil
Com olhares no horizonte
Sei que muito além da vista
Há sonhos em tua fronte
Interrogas da distância
O porquê de tantos ais
Com certeza da infância
Não te esqueceste jamais
Amores estão além
Do que mostra teu olhar
Vives buscando também
Da poesia se encantar
O que há em ti já sabemos
Teu lirismo denuncia
Nesta vida nos perdemos
Na distância todo dia
Dalva Molina Mansano
INTERPRETO
Não sei falar-te de oceanos,
digo-te de brisas
que sopram em meus ouvidos.
Não entendo de ondas gigantes,
sei da renda delas
a nos enlear.
Nada conheço de além-mar,
mas interpreto o que respiras
ao meu lado.
Dalva Molina Mansano
Out. 2010
DE COMUM ACORDO
Os passos são curtos,
olhos enxergam longe,
ao longe,
lugar de ninguém e de mim!
Devo estar lá
como estou aqui,
dupla presença.
Caminhei muito
em areias soltas
e pedras escorregadias,
às vezes, dando-me lições.
Hoje, sento-me
à beira da estrada
e tiro a poeira dos pés.
Releio o destino,
linhas traçadas
por Deus e por mim.
Somos cúmplices.
De comum acordo,
trilhamos,
eu com o fardo nas costas,
Ele ajudando-me nas encruzilhadas.
Minhas escolhas
não são minhas apenas,
são nossas, por isso não erro.
E seguimos!
Dalva Molina Mansano
olhos enxergam longe,
ao longe,
lugar de ninguém e de mim!
Devo estar lá
como estou aqui,
dupla presença.
Caminhei muito
em areias soltas
e pedras escorregadias,
às vezes, dando-me lições.
Hoje, sento-me
à beira da estrada
e tiro a poeira dos pés.
Releio o destino,
linhas traçadas
por Deus e por mim.
Somos cúmplices.
De comum acordo,
trilhamos,
eu com o fardo nas costas,
Ele ajudando-me nas encruzilhadas.
Minhas escolhas
não são minhas apenas,
são nossas, por isso não erro.
E seguimos!
Dalva Molina Mansano
POR AMAR DEMAIS!
Na manhã de domingo
ele encharca-se de bebidas.
Olho-o de minha janela
com o respeito que devo
a todo ser sofrido de amor.
O bêbado, olhar fixo
no tronco da árvore amiga,
canta a canção de sua amada
“meu erro foi, foi te amar demais!”
De longe, alguém ele chama, do nada
e grita o grito dos desesperados,
fala em dignidade, implora aos céus!
Improvisa discursos de dores,
entremeia melodias antigas
“Chuva traga o meu benzinho
pois preciso de carinho”,
chama por Maria Dolores.
recita e fala sozinho, chama
Gesticula, abre os braços
Mira o céu e clama:
“Deus oh! Deus
Onde estás que não respondes?
Em que estrela tu te escondes?”
Tomba na sarjeta, dorme
derrubado pelo vinho,
numa manhã de domingo.
Enquanto isso, nos fios
namora um casal de passarinhos.
...
sóbrios, vão para o ninho.
Dalva Molina Mansano
Set. 2010
Assinar:
Comentários (Atom)









