segunda-feira, 29 de outubro de 2012
NÃO QUERO MAIS
Não quero mais
A imagem do passado
Martelando na memória.
Não quero mais
Andar no quintal das lembranças
De minha história.
Não, não quero mais
Pisar nas calçadas
Sujas de abandono.
Sem ver novamente
Minhas manhãs
Claras de outono.
Não quero mais
O musgo da falta
Dos passos de outrora,
Que vejo neste pesadelo
Sofrido de agora.
Não quero mais
Abrir portões
Que dão para o espaço
De tantas ausências.
Não quero mais
Olhar a tristeza do vazio
De abraços em abstinência.
Não, não quero
O silêncio das vozes,
Caladas por partidas
Tão tristes e atrozes.
O deserto deste tempo
Não quero mais.
Este aperto na garganta
E a falta de ar
Da infância
Não quero mais.
Não quero,
Porque não suporto
A mudez do galo
E do ciciar entre as folhas
Da mangueira.
Não, não quero mais
Pisar neste chão
Da minha viagem primeira.
Não quero mais
Sentir esta falta
De meus pais,
Em tudo que vejo
Estão as suas digitais.
Dalva Molina Mansano
ALUMBRAMENTOS
Repare em torno
Veja as coisas de hoje
As falas desconexas
As danças
O lobo faminto nas estepes
E a autonomia dos homens
Intemperanças
Há um redemoinho
De águas poluídas
Um sem parar
De vontades incontidas
A independência humana
Não expulsa o entorpecimento
Deixe em você o seu pensamento
E acredite nesta minha voz insana
Não há perfeição
Em um ser isolado
Fuja do lobo
esqueça o chamado
O que há é o ter sentimento
E o amor em conjunção,
Em sucessivos alumbramentos
De um gostar condensado.
Dalva Molina Mansano
PRECAUÇÃO
Ardia naqueles olhos
O fogo da pimenta
Que lhe ficara na mão,
Causando choradeira.
Ao invés da ajuda benta
Ensinando a precaução
Para evitar a tormenta,
Cortaram a pimenteira.
Dalva Molina Mansano
INOCENTEMENTE
Foto: Google
De tão azul,
O mar mistura-se
Lindamente
Ao verde.
De tão acostumadas,
As pessoas guardam-se
Inocentemente
Em casa.
Dalva Molina Mansano
SUTILEZAS
FOTO: GOOGLE
Tão mansa é a brisa,
Que o delicado e sincrônico
Bailar das folhas
Causa espanto.
Soa delas o diálogo
Com os pássaros,
Longínquo e duradouro
Em total comunhão.
Há confidências
Únicas e solitárias,
Em que me perco De mim
E me encontro
Com as sutilezas.
Dalva Molina Mansano
DOCE RECANTO
Foto do Google
Minha filha deu-me a luz
deste canto de palavras,
Embaralhei-me no aconchego delas!
Dalva Molina Mansano
terça-feira, 23 de outubro de 2012
O BEM E O MAL
Abro os jornais diários e leio as notícias referentes às atitudes político/partidárias dos homens eleitos pelo povo, em todas as esferas de suas representatividades.
De repente, meu pensamento voa para longe das páginas. Elas ficam por algum tempo abertas em minhas mãos, sem olhos que as leiam.
Na viagem de minha mente, pouso na filosofia do grego Aristóteles e tento associar as ideias dele aos dias atuais. Dizia que deveria haver uma profunda ligação entre a ética e a política.
O Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, aponta o verbete Ética como “o estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana, do ponto de vista do bem e do mal”.
Com base em informações reais colhidas em pesquisas realizadas em 158 cidades, Aristóteles afirma (em sua obra Ética a Nicômaco) que ética e política são ciências que se influenciam mutuamente.
Penso que ética é algo que se aprende, pois não se nasce ético. Em se aprendendo, temos o dever de contribuir para que alguém se torne ético.
O que é o bem? O que é bom? Ora, agir eticamente significa, em princípio, agir livremente, em conformidade com o bem. Essa ciência não pode ser impregnada de leis, entretanto há códigos de conduta. Isto significa que, quando agimos em busca de um bem, começamos a agir eticamente.
A virtude pressupõe conhecimento racional. Embora ela não seja razão pura, é aplicação da razão e esta, naturalmente, governa o sentimento e a emoção. Desta forma, a virtude ética é uma atitude da razão que deve ser exercida com sabedoria.
Já vimos que é através da prática do bem que o homem pode tornar-se virtuoso. Portanto, não é por saber o que é justiça, que as pessoas são consideradas justas, mas por praticá-la.
Após este rápido voo sobre os estudos filosóficos de Aristóteles, volto meu pensamento à atualidade e dou de encontro com as ações políticas dos governantes e seus asseclas. Então, caio na dúvida metódica de Descartes. Mais precisamente, na segunda e terceira regras, em que tratou da constância da vontade, ou seja, que haja ação sem hesitação e moderação nos desejos. “E que o homem deve antes vencer a si próprio do que à fortuna; que nem tudo deve estar inteiramente sob o seu poder, a não ser o pensamento. Isso o impediria de desejar algo que não pudesse adquirir.”
Fecho os jornais, descanso os braços e ainda me dou o direito de sonhar. Sonho com seres humanos que se identifiquem com a maior preocupação de Sócrates, a de que os homens podem viver melhor. Sonho, ainda, com que esses mesmos homens pensem conforme São Tomás de Aquino, que a ética parte do princípio da existência de Deus e que o mal é a ausência do bem.
Dalva Molina Mansano
2012
PORQUE VOCÊ É POETA
Não, nenhum pacote, nenhuma surpresa!
Flores cor-de-rosa nem pensar, nenhuma surpresa, já disse!Porque sei que você não gosta delas.
Sim, claro, o sol. Os raios do sol, que são seus companheiros nesta viagem. São seus todos os dias e, especialmente, hoje. E, pela Providência Divina, as palavras que iluminam seus caminhos, pela verdade delas: “Eis que eu enviarei o meu Anjo, que vá adiante de ti, e te guarde pelo caminho, e te introduza no lugar que preparei”. (Ex. 23, 20-23).
Porque você é poeta, trago-lhe de Cecília Meireles, como se fosse um presente por ela antecipado, brilhando como os raios de sol, costumeiros em seu viver:
“Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre a mesma.
Sempre outra.
Mas sempre alta.
Sempre longe.
E dentro de tudo.”
(Cântico XIII – Cecília Meireles)
Assim, deixo a você os meus parabéns pelo dia do poeta.
Dalva Molina Mansano
2012
sábado, 20 de outubro de 2012
SINOS DE NERUDA
Ouvi o repicar dos sinos de Neruda
Pendurados no campanário
Junto ao mar.
As palavras soaram leves como ajuda
Sons encantados de canário
Conjunto a gorjear.
Dalva Molina Mansano
TUA POESIA
Trago em cada mão
o traço de tua vida.
Em mim, absoluta
espalmo as duas
plenas de tua poesia
e a ti entrego versos
todos os dias.
Dalva Molina Mansano
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
COISAS SÉRIAS
Quando tão menina eu era
Meu pai me levava para passear
No sítio dos encantos.
Lá, só eu via a beleza
E sentia o prazer de ficar encantada,
Entre o céu e a terra.
Eles (os homens) ficavam na cozinha
Tomando café e comendo biscoitos
Ao pé do fogão de lenhas.
Falavam de coisas sérias,
Da geada que queimou a roça
E da carestia do feijão.
Eu descia pelo pasto,
Sozinha com meus pensamentos
E ia parar na beira do riacho.
Olhando as águas transparentes,
Eu viajava sobre elas
Para bem longe.
As pedras ao fundo
Ficavam impávidas
Diante dos meus olhos.
Ali éramos inteiras,
A natureza e eu... Nós duas
Também falávamos coisas sérias.
DAlva Molina Mansano
18/10/2012
domingo, 14 de outubro de 2012
DOMINGO PEDE CACHIMBO
(Foto Google: culturamix.com)
Domingo não é dia de "pé de cachimbo", aliás, nem sei o que é isso. Conheço cachimbo, mas nunca vi uma planta carregada de cachimbinhos. Ou será o "pé", do qual se fala, a base do pito? Pronto: arrumei uma confusão pra minha cabeça logo cedo neste domingo, que não é pé-de-cachimbo, pois domingo pede cachimbo.
Sim, domingo pede cachimbo, pede bolo de banana, pede café feito na hora e pede sombra e água fresca.
Descobri quão pouco sei, porquanto tanto há na cultura brasileira, que não aprendi o significado de tanta coisa. Ainda bem que o filósofo me salva da vergonha de "saber que nada sei".
Claro, não é para falar de pés de cachimbos nem do cachimbo que o domingo pede que aqui vim. Eu queria mesmo era falar do domingo em que já depositei meu voto na urna e que espero ter valido a pena "pois a alma não é pequena", ai, coitado do Fernando Pessoa. Quanto o martirizamos com a pequenez de nossas almas! Sim, mas eu desejava falar do domingo que é dia de saudade.
Eu, particularmente, sou fã das minhas saudades. Tenho saudades de tudo, dos amados que já partiram desta vida, da fatia de pão com manteiga cortada em tirinhas, que minha mãe fazia pra mim, para facilitar o engolimento e eu não perder a hora, de manhã. Saudade do meu pai, fingindo que ia morder minha mão, quando eu mexia no bigode dele. Saudades dos outros que viajaram antes. Saudades da garupa da bicicleta e dos jogos de bola queimada no pátio da escola.
Ah, claro, e das músicas! Sempre fui movida a música. Como não podia deixar de ser, hoje é dia de rolar saudade.
Dalva Molina Mansano
07/10/2012
Domingo não é dia de "pé de cachimbo", aliás, nem sei o que é isso. Conheço cachimbo, mas nunca vi uma planta carregada de cachimbinhos. Ou será o "pé", do qual se fala, a base do pito? Pronto: arrumei uma confusão pra minha cabeça logo cedo neste domingo, que não é pé-de-cachimbo, pois domingo pede cachimbo.
Sim, domingo pede cachimbo, pede bolo de banana, pede café feito na hora e pede sombra e água fresca.
Descobri quão pouco sei, porquanto tanto há na cultura brasileira, que não aprendi o significado de tanta coisa. Ainda bem que o filósofo me salva da vergonha de "saber que nada sei".
Claro, não é para falar de pés de cachimbos nem do cachimbo que o domingo pede que aqui vim. Eu queria mesmo era falar do domingo em que já depositei meu voto na urna e que espero ter valido a pena "pois a alma não é pequena", ai, coitado do Fernando Pessoa. Quanto o martirizamos com a pequenez de nossas almas! Sim, mas eu desejava falar do domingo que é dia de saudade.
Eu, particularmente, sou fã das minhas saudades. Tenho saudades de tudo, dos amados que já partiram desta vida, da fatia de pão com manteiga cortada em tirinhas, que minha mãe fazia pra mim, para facilitar o engolimento e eu não perder a hora, de manhã. Saudade do meu pai, fingindo que ia morder minha mão, quando eu mexia no bigode dele. Saudades dos outros que viajaram antes. Saudades da garupa da bicicleta e dos jogos de bola queimada no pátio da escola.
Ah, claro, e das músicas! Sempre fui movida a música. Como não podia deixar de ser, hoje é dia de rolar saudade.
Dalva Molina Mansano
07/10/2012
AI, AS AREIAS MOVEDIÇAS DO TEMPO
Hoje venta forte, ouço o assovio do vento, que mais parece um lamento. Lamento lembra saudade. Coincidentemente, é domingo.
Eu me levantei disposta a não falar de saudades neste domingo. Quem me dera!
Mas, por consequência da modorra domingueira, a malemolência foi tomando conta de mim, fui sentindo comichão de falar de algumas ausências.
Meus filhos estão longe, cada um cuidando de sua vida, batendo asas e voando como as areias dos lençóis maranhenses, vazando entre meus dedos.
O vento, danado esse vento, leva e traz ao mesmo tempo. Ai, as areias movediças do tempo! Lembro-me de minha mãe à máquina de costura, pedalando, pedalando e costurando vidas. Eu, deitada no assoalho, vendo o vai-vem do pedal e dos pés (tão saudosos pés), que subiam e desciam no eterno balanço da máquina.
O vento, esse vento danado, agora me traz a voz tão límpida de minha mãe, afinada feito passarinho:
“Tenho um cavalo preto
Por nome de Ventania
Um laço de doze braças
No couro de uma novilha
Tenho um cachorro bragado
Que é pra minha companhia...”
Ainda canta em meus ouvidos aquela voz suave, doce e afinada de minha mãe, o vento também vai e vem, no embalo do pedal da máquina. Traz as lembranças e a infância de volta. Areia que se esparrama e cobre o assoalho dos meus sonhos. A voz que cantava vai sumindo mansamente, enquanto meus olhos marejam e ardem, pela areia do tempo:
“Adeus que já vou partindo
Vou pousar noutra cidade
Depois de amanhã bem cedo
Quero estar em Piedade
Deus me deu esse destino
E muita felicidade
Quando passo com meu pinho
Deixo rastro de saudade”...
Dalva Molina Mansano
14/10/2012
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Vestido branco, estampas coradas,
sandálias rasteiras e cabelos soltos
ao vento, fazendo festa.
para o filho e mãe, amores envoltos
de quem nasceu e fez nascer
cantigas em suave seresta.
Eis a alegria e a paz estampadas
dançando com olhar contente,
as lições, já decoradas,
ensinando a toda gente.
Dalva Molina Mansano
sábado, 6 de outubro de 2012
ENTRE AS PAREDES DO PENSAMENTO
Ecoa entre as paredes do pensamento
Tudo aquilo que eu esperava de mim.
Oh, mente assombrada, sem mais escolta
(casa de minha infância), atenda
Dá-me o quintal e minhas ruas de volta.
Conspira comigo e restitui-me a prenda
De conviver, sorrindo, entre estrelas
Com a dominante verdade pura.
Quero comigo a ingenuidade de vê-las,
De, pueril, rir do palhaço, imatura
E de aceitar franquia de ingresso a mim.
Ai, mente endurecida em armadura
Tuas lembranças assim alvas, de jasmim
Perfumadas são flores de laranjeiras.
Que adornam dos meus portais o festim,
Levam-me de volta a alvissareiras
Promessas futuras que não têm fim.
Dalva Molina Mansano
outubro 2012
terça-feira, 2 de outubro de 2012
PARA PENSAR EM TI
Acomodei-me
em um lugar tranqüilo
confortavelmente,
para pensar em ti.
Coloquei o coração
no piloto automático
e realizei inesquecíveis
e lindos voos.
Dalva Molina Mansano
Fots: Google
ÚNICAS
Pende do galho
a flor solitária,
esplendor lilás
de seus encantos.
Lá fora, a chuva
quieta, mansa
chora sobre ela.
Únicas as duas
no silêncio da manhã,
instante mágico
em que o mundo silencia.
Reverência cúmplice
ao expoente máximo
diante dos meus olhos.
Dalva Molina Mansano
ARRISCADA MANOBRA
Ser extensão de alguém
que o corte fino machuca,
à navalha diz amém
e mete a mão na cumbuca.
Com arriscada manobra,
que queima e fere o peito
em dores ela desdobra
o sonho que havia feito.
Dalva Molina Mansano
ACINZENTADO
Partiu o trem levando a pureza
Deixou um não sei quê na fumaça
Mesclada de negro acinzentado
Na estação a moça e sua tristeza
Atenta ao sonho inútil que passa
Despede-se ao longe do seu fado
Dalva Molina Mansano
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
CECÍLIA MEIRELES E A EDUCAÇÃO PARA A SENSIBILIDADE
Foto: Culturix - Google
RESUMO
O objetivo deste artigo é homenagear a escritora e poeta Cecília Meireles. Nele procurou-se correlacioná-la a uma investigação da possibilidade ou não de se promover a educação da sensibilidade no ser humano ou se esta é algo congênito.
A indagação aflorou como fruto de leituras de poemas escritos pela poetisa, direcionados a crianças. Pergunta-se neste trabalho se é possível ou não adestrar a sensibilidade de alguém. Em caso afirmativo, de que forma dar-se-ia essa educação de sentimentos. Para tal averiguação, foram colhidas informações na biografia da escritora, em obras literárias de vários especialistas, em textos de outros poetas e na própria obra da autora.Alguns poemas relativos ao assunto e ao tema fazem parte da explanação. Houve pesquisas em textos filosóficos e científicos que possibilitaram clarear idéias sobre o tema, com intuito de corroborar as conclusões obtidas, as quais resultaram afirmativas.
_____________________________________________________________________________________
Como falar de Cecília Meireles, sem mergulhar na inquietação resultante entre sentimento e razão, inteligência atrelada ao destino e à uniformidade humana; sem ir fundo à verdadeira expressão da natureza por intermédio da alma que espreita e vaticina?
Urge que se fale desta Cecília, que completaria 110 anos no próximo dia 07 de novembro, cuja obra é um exemplo de atualidade que permeia a vida humana, esta que consegue ultrapassar tempestades e atravessar furacões pela janela de olhos que perscrutam, aprendem e ensinam.
Tinha razão Winston Churchill, quando afirmou que somos donos do nosso destino e capitães da nossa alma. Cecília capitaneou a própria alma, todavia ainda hoje leva de roldão a de seus leitores, instruindo-os a enxergar com olhos de sensibilidade.
Pascal dizia que as coisas que instruem o homem são o instinto e a natureza, Cecília mostrou essa verdade, por intermédio de sua arte poética, tão poética quanto inerente e original, tão original quanto congênita.
Pela arte da palavra, a obra Ceciliana cumpriu o papel de transmitir aos outros a plurissignificação dos fatos que estão à volta e dos sentimentos que eles provocam. Corroborando, dessa maneira, a assertiva de Ezra Pound em que dizia “a grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível.”
Educar a sensibilidade é algo que, à primeira vista, causa estranheza à compreensão humana. Pergunta-se, então, se há possibilidade de promover esse tipo de educação. O indivíduo nasce com sensibilidade aguçada ou ela é introduzida nele por uma espécie de ensinamento? A psicologia admite que se possa adestrar a sensibilidade de alguém, a ponto de imprimir-lhe emoções?
Segundo a teoria de Gray, um dos sistemas de comportamento humano é o de ativação comportamental, que organiza as reações a estímulos condicionados, ligadas a um reforço, tanto positivo quanto negativo (não-punição) e que conduz a um comportamento de aproximação, ou seja, à realização do comportamento.
A própria Cecília afirmou: “(...) Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão (...).”
"Eu vim de infinitos caminhos
E os meus sonhos choveram lúcido pranto pelo chão."
(Meireles, Cecília. Herança. In Poesia Completa, p. 302).
"Não te aflijas com a pétala que voa:
Também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verás, só de cinza franzida,
Mortas intactas pelo meu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos,
Ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que me vão lembrando,
Por desfolhar-me é que não tenho fim."
(Meireles, Cecília. 4o. Motivo da Rosa. In Poesia Completa, p. 524).
Por enxergar além das superficialidades, contrariando a etimologia de seu pre- nome, Cecília Meireles preocupou-se com a educação da sensibilidade infantil para que esta colhesse os frutos na vida adulta. Fernando Pessoa afirmava que “quanto mais aprofundamos, com a vida, a própria sensibilidade, mais ironicamente nos conhecemos.” Ela, Cecília, que ouvia o silêncio ao adentrar a solidão, preocupava-se em transmitir tal transcendência às crianças.
Não foi sem motivos que criou a primeira biblioteca infantil do Rio de Janeiro e assinou, durante muito tempo, uma coluna de Educação no Diário de Notícias. Talvez quisesse ela que, a exemplo do que disse Pessoa, ao invés de pensarem na palavra sensibilidade, as crianças pensassem com ela (sensibilidade). Cecília entendia e defendia que "a escola deveria ser um instituto pedagógico e não um seminário, um espaço para os educadores idealistas que acreditam nas ideias generosas." (Meireles, Cecília. "A futura Escola Normal". Rio de Janeiro, Diário de Notícias, Página de Educação, Coluna Comentário, 21 set., 193, p.4).
Sthendal apontava que a alma transforma-se em sensações e “que tudo que no mundo é belo e sublime faz parte da beleza do que amamos.” Desta forma, o amor ao belo e o amor vivificam-se mutuamente.
Ela não fugiu ao coro dos poetas, cujas vozes exprimem os sentimentos do mundo e pedem audição e compreensão, para que a grandeza e a pequenez humanas sejam captadas. Seguem alguns exemplos que comprovam a natureza lírica que corre nas veias dos poetas, natureza esta que explica a alma, a emoção e a temática poética de Cecília Meireles.
Arquíloco, poeta grego, escreveu:
"E não te esqueças, meu coração
Que as coisas humanas apenas
Mudanças incertas são.”
Teógonis, também poeta grego, cantou assim a brevidade da vida:
“Choremos a juventude
E a velhice também
Pois a primeira foge
E a segunda sempre vem.”
Píndaro, como Cecília, versou sobre o sentimento das coisas passageiras:
“A glória dos mortais num só dia cresce,
Mas basta um só dia, contrário e funesto,
Para que o destino, impiedoso, num gesto
O lance por terra e ela, súbito, fenece”.
A poetisa brasileira, Orides Fontela, observou que o mundo é tecido por mudanças e repetições:
“O vento, a chuva, o sol, o frio
Tudo vai e vem, tudo vem e vai”.
Drummond lamentou:
“Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nuda.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.”
Mário Quintana falou sobre o sentimento de renovação e beleza do mundo, da vida e dos seres humanos:
“Quando abro a cada manhã a janela do meu quarto
É como se abrisse o mesmo livro
Numa página nova.”
(In: A Cor do Invisível p.347).
"O encanto
Sobrenatural
Que há
Nas coisas da natureza!
...
Se nela algo te dá
Encanto ou medo,
Não me digas que seja feia
Ou má,
É, acaso, singular...”
(In A cor do invisível, p. 33).
Ovídio, poeta romano, disse, no final da obra Metamorfoses, que em todo o universo tudo flui, nada persiste, o próprio tempo passa, como o movimento contínuo do rio (...) como a natureza renovadora também não descansa e encontra outras formas na forma das coisas.
Cecília Meireles não poderia ser diferente do que foi, nela encontram-se todas as observações dos poetas acima citados. Permanece entre os leitores sempre embevecidos com sua poesia, pois ela ensina que na existência há a essência, que é definida e talhada no correr da vida. Essa essência é a liberdade de reinventar-se e reconstruir-se em cada amanhecer, não obstante as dores e a solidão. "Mas a vida, a vida, a vida,a vida só é possível reinventada."
(Meireles, Cecília. Reinvenção)
Discurso
E aqui estou, cantando.
Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.
Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes
andaram.
Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.
Pois aqui estou, cantando.
Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?
Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?
(Meireles, Cecília. In Poesia Completa)
Empenhada em sua missão de ensinar, Cecília dedicou-se ao magistério e foi diretora de colégio. Tinha, portanto, à frente de seus olhos, uma gama imensa de seres que lhe sugeriam poesia e a quem se entregava em sentimentos. Não se satisfazia com apenas ministrar aulas e administrar escolas. Escolheu caminhos que o coração lhe traçava, produziu poemas com intuitos pedagógicos, para crianças, (sem alertar que assim o eram) e para adultos que se enternecem com a solidão e a espera do que nunca chega.
Com os poemas direcionados à infância, já delineava traços psicológicos, circunstâncias relacionais, conversas simples com a ingenuidade infantil.
Assim emerge a filosofia Ceciliana em textos como Jardins, em que mostra Noêmia como a única menina que não tinha flores em seu jardim, por tê-las dado aos passantes que agora as tinham e, por isso, ela não ficava triste.
Foi uma professora poeta (ou uma poeta professora), dosou em suas páginas infantis a alquimia do imaginário, do humor e da fantasia.
Sabiamente trabalhou a sensibilidade pedagógica, que se tornou atual em qualquer época, posto que se sagrou como uma mulher além do seu tempo. Escreveu "Criança, meu amor", onde ensinou o amor à vida sem exageros fora de contexto e pregou o respeito ao semelhante e à natureza. Mostrou que esta (natureza) pode ser transformada em companheira, se bem observada, em momentos de solidão.
Com recursos expressivos ou com a força da emoção, Cecília era movida pela poesia e buscava a perfeição.
Ora, nada é mais sem fronteiras que o pensamento humano, pois este transporta os seres, em poucos instantes, de um extremo a outro do universo. Nessa viagem sentimental e sensorial, Cecília abre as portas para o encontro da realidade externa com a emoção, possibilitando a entrada da poesia nos sentidos de seus leitores.
O pensamento é criador. Cecília Meireles deixa essa idéia muito claramente exposta em seus poemas, quando neles se percebe que o pensamento atua nas pessoas e gera palavras, com as quais se constroem edifícios de vidas presentes e futuras e modela almas. O pensamento produz formas, imagens frívolas ou austeras, graciosas ou terríveis, grosseiras ou sublimes. A alma se enobrece, embeleza ou cria uma atmosfera de fealdade. Segundo o ideal a que visa, a chama interior aviva-se ou obscurece-se (Denis, Leon).
Desta forma, tem-se a resposta ao questionamento sobre a possibilidade ou não de se educar para a sensibilidade. A própria poetisa revelou que fez de suas desventuras
a área mágica de sua vida e que, com as perdas sofridas que teve, docemente aprendeu as relações entre o Efêmero e o Eterno, compreendeu a transitoriedade de tudo, cuja verdade foi fundamento de sua personalidade.
Não limitou sua aura de mestra às escolas infantis, pois lecionou Literatura Brasileira e disciplinas correlatas nas universidades federais do antigo Distrito Federal e do Texas (EUA).
Teve o mérito reconhecido por Portugal (antes mesmo que o Brasil o fizesse), dedicou aos portugueses a obra Viagem.
Segundo Antônio Cândido, a obra Ceciliana “é um todo uniforme e linear, presidido por três constantes fundamentais: o oceano, o espaço e a solidão (Cândido, Antônio e Castello, J.A.)”. A poetisa capta a realidade reinventado-a liricamente, com impressões sensoriais, limiares, névoas e sugestões; valoriza a linguagem metaforizada e as sinestesias. Além do rigor formal, Cecília Meireles preocupava-se com a seleção de vocábulos, versos curtos e paralelismos sintáticos. Eis o exemplo no poema a seguir:
Primeiro Motivo da Rosa
Vejo-te em seda e nácar,
e tão de orvalho trêmula, que penso ver, efêmera,
toda a Beleza em lágrimas
por ser bela e ser frágil.
Meus olhos te ofereço:
espelho para face
que terás, no meu verso,
quando, depois que passes,
jamais ninguém te esqueça.
Então, de seda e nácar,
toda de orvalho trêmula, serás eterna. E efêmero
o rosto meu, nas lágrimas
do teu orvalho... E frágil.
(Meireles, Cecília. In Poesia Completa)
Em diversos momentos assemelhou-se ao Arcadismo pela busca da simplicidade, pelo emprego freqüente da ordem direta. Tinha predileção por versos brancos.
Lembrança rural
Chão verde e mole. Cheiros de relva. Babas de lodo.
A encosta barrenta aceita o frio, toda nua.
Carros de bois, falas ao vento, braços, foices.
Os passarinhos bebem do céu pingos de chuvas.
Casebres caindo, na erma tarde. Nem existem na história
Do mundo. Sentam-se à porta as mães descalças.
É tão profundo, o campo, que ninguém chega a ver que é triste.
A roupa da noite esconde tudo, quando passa...
Flores molhadas. Última abelha. Nuvens gordas.
Vestidos vermelhos, muito longe, dançam nas cercas.
Cigarra escondida, ensaiando na sombra rumores de bronze.
Debaixo da ponte, a água suspira, presa...
Vontade de ficar neste sossego toda a vida:
Para andar à toa, falando sozinha,
Enquanto as formigas caminhavam nas árvores...
(Cecília Meireles)
Fugiu da característica intimista para publicar, em 1953, Romanceiro da Inconfidência, narração poética em que fundiu história e lenda e nela escreveu o mais eterno dos valores _ a liberdade _ uma das mais belas estrofes da nossa literatura.
"Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda."
Tinha, presente em seus poemas, a musicalidade como característica fundamental que lhe conferia esmero técnico, sem prejuízo da mensagem. Assim falava da saudade, tão presente em seus poemas.
De Longe te hei de Amar
De longe te hei de amar,
- da tranqüila distância
em que o amor é saudade
e o desejo, constância.
Do divino lugar
onde o bem da existência
é ser eternidade
é parecer ausência.
Quem precisa explicar
o momento e a fragrância
da Rosa, que persuade
sem nenhuma arrogância?
E, no fundo do mar,
a estrela, sem violência,
cumpre a sua verdade,
alheia à transparência.
(Cecília Meireles – in Canções)
Cecília dizia que o sentido provém das palavras que têm poderes contraditórios: libertam ou prendem, são frágeis e, ao mesmo tempo fortes, transformam, condenam e perdoam:
(...)
Ai, palavras, ai, palavras
Que estranha potência a vossa!
Éreis sopro na aragem...
_ Sois um homem que se enforca!
(Romance LIII ou das palavras aéreas. In Meireles, Cecília. Obra Poética. Rio de Janeiro, Aguillar, 1958, p. 793-795)
Escreveu poemas de fundo simbolista, depois, deixou-se influenciar, de certo modo, pelo Modernismo, embora tenha resistido a romper com o passado.
Em sua evolução poética, juntou-se em determinada fase ao grupo espiritualista do movimento Simbolista-Modernista. Todavia, dona de uma poética extremamente pessoal, nunca esteve filiada a nenhum movimento literário. O que lhe confere associação ao Néo-Simbolismo é a presença constante em sua poesia de elementos temáticos recorrentes, como a insuficiência do amor, a dificuldade da própria existência, o vento, a água, o mar, o ar, o tempo o espaço, a fugacidade do tempo, a liberdade, a solidão, o espiritualismo, tudo com muita musicalidade, fundindo o ser humano e a natureza. Tais elementos dão um caráter fluido e etéreo à obra Ceciliana. Além do rigor formal, Cecília Meireles preocupava-se com a seleção de vocábulos, versos curtos e paralelismos sintáticos.
Assim foi Cecília Meireles, uma alma feminina com suas nuanças, cujos caminhos estéticos percorriam mais ligados à evolução pessoal que a movimentos.
Deu lições de como aprender com os vãos da vida e fazer vingar, através da literatura, qualquer tipo de semente neles jogada a esmo. De que, onde menos se espera, florescem a resistência e a poesia.
Fez do ato de escrever um movimento pra frente, por onde se transita com o desconhecido e se incorpora em seu sentimento o material existente e o intelectual, amalgamados à espiritualidade.
Educou sensibilidades, sim, e fez com que crianças e adultos fossem capazes de refinarem seus sentimentos, através de idéias emotivas.
Escreveu:
"Aqui está minha vida.
Esta areia tão clara com desenhos de andar
dedicados ao vento.
Aqui está em minha voz,
esta concha vazia, sombra de som
curtindo seu próprio lamento.
Aqui está minha dor,
este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está minha herança,
este mar solitário
que de um lado era amor
e, do outro, esquecimento."
Concluindo a ideia inicial deste artigo, podemos inferir que a sensibilidade humana pode ser educada, pois como a própria Cecília disse, "não obstante o estado geral de tristezas, brotam coisas novas". Dizia que "todos os caminhos se transfiguram e que, em vez de se desenharem no chão, estavam escritos entre as estrelas."
(Meireles, Cecília. O espírito victorioso. Rio de Janeiro. Ed. Anuário do Brasil, 1929, p. 102).
Transferiu aos leitores a sua sensibilidade de mulher afeita à observação do entorno, com olhar poético. Entretanto, não se limitou a esse aspecto subjetivo de abstração, mas "pôs a mão na massa" e tomou atitudes concretas, desenvolvendo atividades e trabalhos relacionados à educação infantil, visando o desenvolvimento do intelecto e da grandeza de espírito humano de cada um. Afirmou que tudo que se relaciona com educação e ensino - desde a escola primária até a universidade - para ela foi objeto de preocupação. "A criança ama a natureza; amontoam-na em salas fechadas; quer brincar; fazem-na trabalhar" (Ferrière).
Escreveu em "A imaginação deslumbrada da criança: "Em toda criança preservada ainda dessa opressão dos preconceitos que sobre elas costuma exercer a deformadora tirania dos adultos, em toda criança que vem evoluindo livremente de dentro de si mesma com essa misteriosa orientação que faz plantas romperem as sementes para, atravessando o duro solo, realizarem em pleno sol a intenção do seu destino, mora uma alma deslumbrada, enfrentando a ida como um grande espetáculo mágico, e elaborando, diante de cada coisa que contempla, o sonho silencioso das suas próprias interpretações."
Apoiou-se em Anatole France para trazer à superfície o mundo encantado da infância. Dizia que "as belas invenções da infância são a realização de sua própria vida interior; a prática de si mesmas". Nessa prática, descobre-se que é possível abstrair sonhos entre terrenos revestidos de concreto.
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FONTES:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Temperamento_(psicologia)
http: //www.omensageiro.com.br/cursos/csde/55.htm.
http: //www.citador.pt/textos/a-alma-transformase-em-sensações-stendhal.
HTTP://WWW.citador.pt/textos/sensibilidade-no-tom-certo-fernando-pessoa.
MEIRELES, Cecília.Obra Poética. Aguillar, p. 793-795. Rio de janeiro, 1958.
MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Vol. I. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 1997.
LÔBO, Yolanda/ Cecília Meireles. Ed. Massangana. Recife, 2010.
MARILENA, Chauí. Convite à filosofia. Ática. São Paulo, 2000
MEIRELES, Cecília. Poesias completas. 2a. Ed. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 1976.
CASTRO, Maria da Conceição. Língua e Literatura. 3a. Ed. Saraiva, 1995
CEREJA, William Roberto/ MAGALHÃES, Thereza C. Português Linguagem. Atual, 2003.
MEIRELES, Cecília. Criança, meu amor. Nova Fronteira, 1977.
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Eis minha homenagem a Cecília Meireles, neste ano em que completaria 110 anos de vida, na segunda-feira próxima, 07 de novembro.
Dalva Molina Mansano
Novembro de 2011.
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